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quinta-feira, março 5, 2026

As lições do caso Master ao jornalismo que se acha dono da verdade

A nova prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro reacende uma velha discussão sobre poder, imprensa e a curiosa fauna dos comentaristas universais

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O noticiário desta quarta-feira trouxe mais um daqueles episódios que ajudam a lembrar, para quem ainda tem dúvidas, que o exercício do jornalismo continua sendo uma atividade capaz de provocar desconforto quando toca em interesses robustos. Por ordem do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, foi determinada a nova prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, personagem central de uma investigação que já vinha sacudindo os bastidores do sistema financeiro e alimentando expectativas sobre possíveis revelações mais amplas. No meio desse turbilhão, um dos envolvidos no esquema, da “turma” de Vorcaro, o “sicário”, acabou tirando a própria vida dentro da cadeia, fato que por si só dá a dimensão do ambiente de tensão que cerca o caso.

Não é preciso muito esforço para perceber que, sempre que uma investigação alcança personagens de grande poder econômico ou político, o ruído em torno da imprensa cresce na mesma proporção. Foi assim agora, como tantas outras vezes antes. Reportagens publicadas pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, acabaram se tornando parte da narrativa pública do episódio, reacendendo uma velha discussão sobre o papel do jornalismo quando ele deixa de ser mero observador e passa a incomodar gente influente. A história é antiga: quando a notícia toca em territórios sensíveis, logo aparece alguém disposto a questionar não apenas o conteúdo da informação, mas também o direito de quem a divulgou.

Esses momentos costumam ser reveladores, porque ajudam a separar duas posturas bastante distintas dentro da própria profissão. De um lado estão os jornalistas que continuam acreditando que seu trabalho consiste, essencialmente, em investigar, apurar e publicar aquilo que consideram relevante para a sociedade, mesmo sabendo que determinadas linhas impressas ou palavras transmitidas pelo microfone podem atravessar territórios perigosos. Do outro lado, cresce silenciosamente uma figura cada vez mais comum na paisagem da comunicação contemporânea, especialmente no rádio do interior: o jornalista-polvo.

Chamo assim porque ele estica seus tentáculos para todos os lados. Logo nas primeiras horas da manhã comenta, com notável segurança, um crime ocorrido na madrugada, descrevendo circunstâncias e hipóteses como se tivesse acompanhado cada passo da investigação. Pouco depois passa a analisar o resultado da rodada do futebol com a desenvoltura de um comentarista esportivo veterano. No meio da manhã já se aventura pelos humores do mercado financeiro e pela oscilação dos números da Bolsa de Valores. E antes que o relógio alcance o antigo e prudente limite das cinco horas — horário que os velhos jornalistas costumavam respeitar antes de se aventurar em prognósticos políticos — já assume o papel de intérprete da República, decifrando movimentos partidários e antecipando votações no Congresso Nacional. Alguns chegam até a alimentar a curiosa impressão de que suas bravatas radiofônicas ecoam muito além do alcance do dial, como se ministros e autoridades em Brasília passassem a madrugada atentos ao que se comenta nos estúdios das pequenas emissoras do interior.

Não se trata exatamente de versatilidade. Versatilidade sempre foi uma virtude do bom repórter, que por definição precisa cultivar curiosidade ampla e disposição permanente para aprender. O fenômeno que se observa hoje é um pouco diferente. Trata-se da consolidação do comentarista universal, uma espécie de profissional multitarefa que opina sobre praticamente qualquer assunto que apareça no horizonte informativo, muitas vezes com a mesma convicção com que um meteorologista anuncia a chegada de uma frente fria.

No rádio interiorano, esse modelo tem explicações bastante concretas. Em muitas cidades, o jornalista que ocupa o microfone precisa se firmar não apenas pela qualidade de sua informação, mas também pela capacidade de manter uma carteira razoável de anunciantes. O funcionamento das emissoras locais frequentemente mistura duas dimensões que, em teoria, deveriam permanecer separadas: o exercício do jornalismo e a sobrevivência comercial da programação. Não raro, o profissional que conduz o noticiário também precisa circular pela cidade oferecendo espaços publicitários, negociando apoios e garantindo a sustentação financeira do próprio programa.

Quando informação, opinião e faturamento passam a compartilhar o mesmo ambiente, a fronteira entre análise e conveniência começa a se tornar difusa. Surge então a elasticidade profissional: fala-se de tudo, comenta-se sobre tudo e, sempre que possível, evita-se provocar desconforto excessivo em quem ajuda a manter a engrenagem funcionando. O resultado é um jornalismo permanentemente flexível, capaz de se adaptar a qualquer assunto e a quase qualquer circunstância.

Confesso que nunca tive grande habilidade para esse tipo de ginástica. Talvez por defeito de fabricação, talvez por simples teimosia profissional. Desde muito cedo preferi manter certa distância entre o bloco de notas e a carteira de anunciantes, convicto de que misturar as duas coisas costuma produzir resultados difíceis de administrar. O preço dessa escolha acabou ficando registrado na minha própria trajetória profissional. Minha carteira de trabalho se transformou, ao longo dos anos, numa verdadeira colcha de retalhos editorial — uma sequência de redações, emissoras e projetos que foram se sucedendo conforme as circunstâncias e os limites de convivência.

Faz parte do ofício. O jornalismo nunca foi um território confortável para quem insiste em preservar alguma margem de independência.

No fim das contas, a profissão continua sendo um exercício delicado de equilíbrio entre sobreviver e permanecer fiel àquilo que se acredita ser o seu propósito. Entre adaptar-se aos tempos e não se esticar além do que a própria consciência permite. Porque elasticidade demais, como se sabe, um dia arrebenta.

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