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sexta-feira, março 6, 2026

Marçal tem em mãos, enfim, a oportunidade da homenagem que Dourados ainda deve a Zé Elias

Entre promessas em velório e a memória de um dos prefeitos mais marcantes da cidade, continua pendente a justa homenagem a José Elias Moreira

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Valfrido Silva

No velório do ex-prefeito José Elias Moreira, cantado em prosa e verso como um dos maiores administradores que já passaram por Dourados, puxei o então presidente da Câmara Municipal, Laudir Munaretto, para um canto e cochichei ao seu ouvido que aquele era o momento exato para se fazer a mais justa homenagem que um homem público pode receber na cidade que tão bem administrou. Minha sugestão era simples: que Munaretto atropelasse — no bom sentido — o já carcomido regimento interno da Câmara que proíbe a troca de nomes de ruas e colocasse o nome do prefeito que acabara de falecer justamente na rua Monte Alegre, onde ele morou desde que assumiu a prefeitura até o último dia de vida.

A proibição, ironia das ironias, existe por influência do próprio Zé Elias. Quando prefeito, ele interferiu junto ao Legislativo para impedir que a fúria mudancista de alguns nobres edis chegasse às ruas Mato Grosso e Cuiabá. Lembro-me perfeitamente de uma frase que ele soltou numa roda de boteco, num desses fins de tarde douradenses em que política e prosa se misturam naturalmente: “Se trocarem o nome da rua Cuiabá a Adenil pede o divórcio”. Adenil, então primeira-dama, irmã do ex-presidente da Assembleia Legislativa Walter Carneiro, à época também vereador, cuiabanos de chapa e cruz.

No momento do sepultamento chovia fraco e eu era o único de guarda-chuva. O então prefeito Alan Guedes aproximou-se para dividir a proteção improvisada. Aproveitei a proximidade do instante — o caixão de Zé Elias descendo ao sepulcro ao som da guarania Mercedita, música que ele fazia questão de ouvir sempre que chegava a qualquer ambiente de recreação — e repeti ao prefeito a mesma sugestão. Dei a ele, inclusive, um argumento forte para que a ideia não caísse na conhecida gaveta das protelações do Jaguaribe: lembrei que quando morreu o jogador Roberto Dinamite, no Rio de Janeiro, o prefeito Eduardo Paes não pestanejou e no dia seguinte mandou colocar o nome do ídolo vascaíno na rua que antes levava o nome, ora vejam só, de um general — Almério de Moura — exatamente a rua do estádio São Januário.

Alan Guedes foi peremptório: “Deixa comigo”. Isso foi em 15 de março de 2023. Quase três anos se passaram. Alan Guedes foi defenestrado da prefeitura, Laudir Munaretto segue convivendo com os pesadelos da obra interminável da nova Câmara Municipal e, até agora, nadica de nada da homenagem prometida.

Agora a responsabilidade passa às mãos do prefeito Marçal Filho, que entrou na política justamente pelas mãos do próprio José Elias Moreira. Aliás, a fotografia que ilustra este texto registra um momento carregado de simbolismo: Marçal, envolto na bandeira do município durante sua posse na Câmara Municipal, jurando resgatar os valores morais e culturais de Dourados.

É a oportunidade perfeita para transformar aquele compromisso solene em gesto concreto de memória pública. Se não quiser trocar de vez o nome da rua Monte Alegre, há uma alternativa ainda mais simbólica: dar o nome de Prefeito José Elias Moreira à nova avenida cuja obra começou nesta semana e que vai ligar a velha Cabeceira Alegre, na altura do Shopping Avenida Center, à BR-463, com primeira bifurcação nas proximidades da sede de campo da AABB.

Zé Elias certamente ficaria ainda mais faceiro ao saber que a avenida com seu nome nasceria exatamente dentro do Parque Arnulpho Fioravanti, uma de suas obras emblemáticas homenagem a um de seus mais fiéis companheiros de UDN, o partido historicamente conhecido como “marvada”, que sustentou o regime totalitário instalado em Março de 1964.

“Seria uma forma elegante de fechar um ciclo de memória política na cidade”, disse ontem ao contrapontoMS, o cunhado de Zé Elias, vereador, deputado e presidente da Assembleia Legislativa, o hoje octogenário Walter Benedito Carneiro.

E, convenhamos, homenagens assim não deveriam depender de três anos de espera, de troca de prefeitos ou de mudanças no humor da política local. Algumas simplesmente precisam ser feitas enquanto a memória ainda está viva — antes que o tempo, esse velho e implacável legislador, trate de arquivar também aquilo que a cidade deveria lembrar para sempre.

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