Valfrido Silva
Há um fenômeno curioso que acompanha toda crônica crítica: a carapuça. Ela não é distribuída pelo autor, nem chega pelo correio. A carapuça simplesmente aparece — e, misteriosamente, encontra sempre quem a vista.
Foi assim depois da publicação da crônica sobre os jornalistas-polvos. O texto descre uma espécie bastante conhecida no ecossistema do rádio interiorano: profissionais capazes de comentar, no intervalo de uma única manhã, um crime ocorrido na madrugada, o resultado da rodada do futebol, a oscilação da Bolsa de Valores e, antes que o sol comece a baixar no horizonte, os movimentos estratégicos da política nacional.
Não há nomes. Não há endereços. Muito menos coordenadas geográficas. Ainda assim, bastou a publicação para que surgisse um fenômeno típico do jornalismo regional: o aparecimento espontâneo dos proprietários da carapuça.
Alguns reagiram com humor, como convém a quem entende que o jornalismo também precisa de autocrítica. Outros preferiram o silêncio, técnica antiga e respeitável usada por quem percebe que a descrição talvez tenha ficado próxima demais da realidade.
E houve também aqueles que reagiram com certo desconforto — o que, diga-se de passagem, costuma ser um indício bastante confiável de que a metáfora encontrou seu destinatário. A carapuça tem esse efeito. Ela não acusa. Apenas revela.
No fundo, a questão levantada pela crônica anterior é simples: até que ponto o jornalismo pode se esticar sem perder sua essência? A tentação do comentarista tipo “clínico geral” não nasceu hoje. Ela acompanha a própria evolução dos meios de comunicação, especialmente em ambientes onde a sobrevivência do microfone depende tanto da informação quanto da publicidade.
No rádio interiorano, todos sabem como funciona. O profissional precisa falar de tudo, comentar tudo e, sempre que possível, manter boas relações com aqueles que ajudam a manter o programa no ar. É uma equação delicada, que mistura jornalismo, sobrevivência econômica e certa dose de elasticidade editorial.
A diferença é que alguns conseguem fazer esse equilíbrio com elegância. Outros acabam exagerando nos tentáculos. E é nesse momento que a carapuça entra em cena. Não porque alguém a tenha lançado, mas porque, no fundo, cada profissional sabe exatamente qual chapéu lhe pertence.
