Valfrido Silva
Se Sócrates resolvesse caminhar hoje pelos corredores da República brasileira — essa ágora tropical que mistura Brasília, tribunais, palanques e escândalos — talvez não demorasse muito a reconhecer velhos conhecidos de sua filosofia. Afinal, há mais de dois mil anos ele já advertia que o maior perigo para uma cidade não vinha de inimigos externos, mas da deterioração moral de seus próprios governantes. A corrupção, dizia o velho filósofo ateniense, nasce quando os homens deixam de examinar a própria consciência e passam a acreditar que o poder existe para servi-los, e não para servir à coletividade.
Seu discípulo Platão, ao escrever A República, foi ainda mais direto. Para ele, as cidades entram em decadência quando os governantes se apaixonam mais pelas vantagens do cargo do que pelas responsabilidades que ele impõe. É nesse momento que a política deixa de ser exercício de justiça e passa a funcionar como um mercado de ambições pessoais.
Séculos depois, já no século XIX, essa mesma preocupação reapareceria de maneira curiosa no Evangelho Segundo o Espiritismo, codificado por Allan Kardec. Ali, ao resumir ensinamentos morais que remontam à tradição socrática e platônica, aparece uma observação quase brutal em sua franqueza: para que desapareça completamente a corrupção entre os homens, seria necessário que desaparecessem também os próprios homens que a praticam. Não se trata de uma sentença de morte literal, mas de uma constatação pedagógica: a humanidade evolui lentamente, geração após geração, aprendendo — ou fingindo aprender — com os erros do passado.
O Brasil contemporâneo parece ser um laboratório vivo dessa velha aula de filosofia moral. A cada semana o país acorda diante de um novo escândalo, um novo personagem e um novo roteiro em que política, dinheiro e poder se entrelaçam com uma familiaridade quase didática. A reportagem exibida neste domingo pelo Fantástico, mostrando a investigação de uma curiosa “vaquinha” organizada para a compra de uma mansão à beira-mar por um prefeito paraense no Ceará, apenas acrescenta mais um capítulo a esse romance tropical da República.
Transferências via PIX substituem as antigas malas de dinheiro, mas a dramaturgia permanece a mesma: luxo incompatível com a vida pública, versões contraditórias, investigações em andamento e a velha sensação de que o país já viu esse filme antes.
Tudo isso acontece num momento em que o noticiário político brasileiro também gira em torno do chamado caso Master, investigação que recolocou o ministro Alexandre de Moraes — o popular Xandão, personagem já onipresente da vida institucional brasileira — no centro do palco jurídico e político do país. Entre decisões judiciais, inquéritos complexos e debates acalorados sobre os limites do poder institucional, o Brasil assiste a mais uma temporada de seu interminável seriado republicano.
Vista de longe, a política brasileira começa a parecer uma espécie de tragicomédia filosófica. Sócrates provavelmente se sentaria numa mesa de bar em Brasília, pediria um café e começaria a fazer perguntas incômodas. Platão talvez anotasse tudo num novo capítulo de sua República. E o Carpinteiro da Galileia, aquele mesmo que advertiu que onde está o tesouro de um homem ali estará também o seu coração, provavelmente observaria tudo em silêncio.
Enquanto isso, nos cafundós do Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul também se prepara para sua própria temporada eleitoral. E como toda boa narrativa política regional, o elenco de pré-candidatos já começa a surgir nos bastidores trazendo consigo não apenas discursos inflamados e promessas de renovação, mas também um patrimônio bastante peculiar: extensas fichas processuais, as famosas capivaras, acumuladas ao longo de anos de investigações, inquéritos e processos que parecem dormir nos escaninhos insondáveis do Judiciário.
Alguns desses personagens já experimentaram episódios que fariam qualquer manual de ciência política ganhar novos capítulos: operações policiais ao amanhecer, bloqueios judiciais de bens, patrimônios de origem contestada e processos que atravessam governos como se fossem heranças familiares da política regional.
O eleitor sul-mato-grossense conhece bem esse roteiro. Basta lembrar de duas feridas que ainda permanecem abertas na memória política do Estado. A Operação Uragano, em Dourados, que varreu praticamente uma geração inteira da política municipal e levou à prisão o então prefeito Ari Artuzi, transformando a cidade num símbolo nacional da degradação administrativa. E a Operação Lama Asfáltica, em Campo Grande, investigação que expôs um complexo esquema de desvios de recursos públicos e acabou atingindo o núcleo do poder estadual, levando à prisão um ex-governador e abrindo um dos capítulos mais constrangedores da história política sul-mato-grossense recente.
Mesmo assim, como se a memória coletiva fosse um arquivo facilmente apagável, novos e velhos personagens voltam a se apresentar ao eleitorado com a desenvoltura de quem acredita que o tempo tem poderes quase milagrosos sobre biografias políticas.
Com o calendário eleitoral correndo e a lupa da opinião pública começando a percorrer essas biografias com atenção crescente, não é de estranhar que o clima entre alguns aspirantes a cargos majoritários esteja mais tenso do que reunião de condomínio em prédio com obra irregular. Há quem garanta, inclusive, que o estoque de Rivotril e congêneres já anda perigosamente baixo nas farmácias do Estado, tamanho o nervosismo de certos figurões que começam a perceber que suas capivaras podem ganhar vida própria no debate eleitoral.
Entre Sócrates, Platão, Kardec e o Carpinteiro da Galileia, talvez a lição continue a mesma que atravessa séculos de história humana: nenhuma República será verdadeiramente justa enquanto os homens que a governam não aprenderem primeiro a governar a si mesmos.
Até lá, o Brasil continuará assistindo a essa curiosa pedagogia da corrupção — uma aula permanente em que os personagens mudam, os métodos evoluem, mas a moral da história insiste em permanecer exatamente a mesma.
E Sócrates, lá do fundo da história, provavelmente apenas sorriria com aquela ironia que atravessou milênios e diria, com a calma de quem já viu esse espetáculo muitas vezes:
— Eu avisei.
