Se a política fosse uma ópera bufa — e às vezes parece ser — o enredo que começa a se desenhar em Dourados teria todos os elementos de uma comédia eleitoral de primeira linha. Personagens improváveis, padrinhos barulhentos, marketing emocional e aquela eterna sensação de que, desta vez, a vitória virá fácil, quase como quem toma doce de criança. De um lado da cena aparece Gianni Nogueira, vice-prefeita de Dourados e figura que se apresenta como uma das representantes mais fiéis do bolsonarismo em Mato Grosso do Sul. De outro, a vereadora, também bolsonarista, Isa Cavala Marcondes, fenômeno eleitoral por garantir que entendia de zona o suficiente para resolver os problemas de Dourados.
Marinheira de primeira viagem na política majoritária, mas já navegando com vento forte nas velas, Gianni carrega na bagagem aquilo que hoje pesa tanto quanto palanque ou tempo de televisão: como mulher do “Gordinho do Bolsonaro”, a proximidade política com o ex-presidente, elemento que, no atual mercado eleitoral da direita brasileira, funciona quase como selo de autenticidade ideológica.
Assim, frequentadora do círculo íntimo político de Bolsonaro, Gianni surge nos bastidores como candidata natural para representar no Estado o eleitorado mais fiel ao movimento. Há quem diga, meio em tom de brincadeira e meio em cálculo eleitoral, que a campanha poderia ser resolvida com uma estratégia simples: montar uma tenda em frente à Papuda, erguer um púlpito improvisado e realizar ali alguns cultos diários em oração pelo destino político do “mito”. Num país onde a política muitas vezes se move por símbolos e emoções, bastaria repetir a promessa de lutar no Senado pela anistia e deixar que o fervor militante fizesse o resto do trabalho. Marketing barato, dizem alguns adversários — mas potencialmente eficaz. Em tempos de política altamente emocional, esse tipo de identificação costuma valer mais do que qualquer currículo administrativo.
Mas a política, como sempre, gosta de complicar aquilo que parecia simples. O PL, partido que abriga grande parte da tropa bolsonarista, virou uma espécie de avenida congestionada em Mato Grosso do Sul. A chegada do ex-governador Reinaldo Azambuja e o anúncio da candidatura do deputado Marcos Polon ao Senado transformaram a legenda num estacionamento lotado de aspirantes à mesma vaga. Resultado: a vice-prefeita douradense já começa a ensaiar uma mudança estratégica de endereço partidário. O destino seria o NOVO, partido que, embora menor em estrutura, oferece algo raro no atual mercado político: pista livre. E em política, às vezes, pista livre vale mais que avião cheio.
Se esse movimento se confirmar, Gianni pode acabar se tornando um daqueles fenômenos curiosos que a política brasileira produz de tempos em tempos: candidaturas que crescem não apenas pela força própria, mas pela capacidade de mobilizar uma base emocional altamente engajada. Um repeteco, aliás, do que aconteceu com outra douradense, nas mesmas eleições para o Senado de oito anos atrás: a bolsonarista Soraya Thronicke que, do nada, virou senadora na carona da chapa do presidente eleito da vez. Em seus cultos na calçada da Papuda Gianni só não pode esquecer o versículo bíblico que virou mantra do movimento, o do Evangelho de João (8;32): “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
Do outro lado do palco político douradense surge a figura já consagrada no folclore eleitoral da cidade: a vereadora Isa Marcondes, a Isa Cavala. Fenômeno de votos na última eleição municipal, ela transformou estilo direto, frases de impacto e uma presença pública sem filtros em marca registrada. Agora, setores da política estadual começam a enxergar nela algo mais do que uma vereadora popular. Há quem a imagine disputando uma vaga na Câmara dos Deputados, aposta que mistura cálculo eleitoral com aquela velha intuição política que costuma nascer mais nos corredores do poder do que nas planilhas dos marqueteiros.
Nesses bastidores, porém, há uma explicação ainda mais pragmática para esse entusiasmo repentino: veteranos da Assembleia Legislativa, alguns com oito, dez ou até mais mandatos acumulados, preferem lidar com qualquer outro adversário antes de correr o risco de ver uma Cavala douradense galopando pelo pasto do Guaicurus — claro, pela jura eleitoral de “colocar ordem na zona”. Melhor, portanto, empurrá-la para a zona do Planalto Central e deixar que a disputa se resolva a milhares de quilômetros dali.
A lógica por trás da aposta é simples: repetir em escala maior a fórmula que a transformou na vereadora mais votada de Dourados. Na campanha municipal, Isa costumava resumir sua visão da política local com uma frase que acabou virando slogan eleitoral: “dizem que Dourados está uma zona — e de zona eu entendo”. O eleitor riu da franqueza, gostou da ousadia e lhe deu quase três mil votos. Agora, se o projeto de levá-la a Brasília realmente prosperar, a metáfora pode ganhar dimensões nacionais. Porque, convenhamos, o ambiente político da capital federal anda oferecendo material abundante para comparações desse tipo. A última, no noticiário, com o escândalo envolvendo o Banco Master sacudindo os bastidores do poder e projetando sombras até sobre o ministro Alexandre de Moraes, algoz do bolsonarismo e personagem central de uma tempestade política e jurídica que a imprensa brasileira acompanha em tempo real.
Enquanto isso, os candidatos tradicionais observam o tabuleiro com atenção crescente. Reinaldo Azambuja, Nelsinho Trad, Vander Loubet e outros nomes de peso da política estadual sabem — ou deveriam saber — que eleição para o Senado em Mato Grosso do Sul raramente segue o roteiro escrito nos primeiros meses de campanha. A política tem dessas ironias que gostam de desmentir certezas prematuras. Basta recorrer à memória para lembrar dois verdadeiros “monstros sagrados” da política regional, Rachid Saldanha Dérzi e Pedro Pedrossian, que experimentaram o dissabor de perder disputas consideradas ganhas. Em matéria de Senado, por estas bandas, o eleitor costuma ter um humor peculiar: quando todo mundo aposta que a corrida terminou, ele ainda está apenas pensando na próxima zebra.
