Há encontros que não são apenas encontros. São reencontros com a própria história. São momentos em que o tempo parece dobrar sobre si mesmo e nos devolver àquilo que somos, àquilo que fomos e, sobretudo, àquilo que jamais deixaremos de ser.
Eu, no alto dos meus 64 anos, tive o prazer raro de confabular longamente com um profissional setentão da comunicação que sobreviveu ao tempo — e não apenas sobreviveu, mas permaneceu relevante, firme e respeitado mesmo em uma era dominada pela internet, pelas redes sociais e pela inteligência artificial. Em meio a tantas vozes apressadas e superficiais, ele ainda se destaca com seus artigos sinceros, realistas, eloquentes e, por vezes, até perturbadores — daqueles que incomodam porque dizem aquilo que muitos prefeririam esconder.
Esse homem é o meu amigo Valfrido Silva.
Sempre foi assim: firme nas palavras, decisivo nas posições e eloquente diante dos acontecimentos. Um jornalista que não escreve apenas para preencher espaços, mas para provocar reflexão, para desnudar hipocrisias e para lembrar que o jornalismo verdadeiro ainda tem coragem.
Porque, afinal, um povo sem história é um povo sem raiz.
E se não tem raiz, não tem firmamento.
E se não tem firmamento, cai.
Cai no esquecimento do tempo.
E assim as pessoas perdem sua identidade. A cidade perde sua origem, sua memória e sua alma.
Hoje tive a oportunidade de conversar com um grande jornalista, um amigo, um grande profissional da imprensa: Valfrido Silva. Uma pessoa por quem tenho estima, carinho e profunda consideração. Ele me abriu as portas de seu apartamento, lá no alto — no 6° andar — onde, entre uma conversa e outra, relembramos fatos e acontecimentos de tempos passados.
Na área gourmet de seu apartamento, brindamos a memória com umas deliciosas Heinekens, enquanto nossos olhos percorriam a paisagem da toda poderosa cidade de Dourados.
Dourados…
Cidade que me viu nascer.
Onde cresci, me criei, construí lembranças e amizades que o tempo jamais apagará. Há vinte e cinco anos parti para Três Lagoas, mas deixei aqui minhas raízes. Deixei amigos. Deixei saudades.
E sempre que retorno, a cidade me surpreende.
Surpreende pelo crescimento.
Pela pujança.
Pelo tamanho.
Pela grandeza que assumiu com o passar dos anos.
E naquele apartamento, olhando o horizonte urbano de Dourados, percebi algo ainda mais bonito: dali, de um dos cômodos de sua casa, Valfrido Silva trava diariamente suas batalhas jornalísticas. Diante do teclado, escreve o que muitos pensam, mas poucos têm coragem de dizer.
Ali nascem suas colunas.
Ali surgem suas análises sobre comunicação, política local e estadual.
Ali se formam as pérolas de um jornalismo que não se curva.
Posso dizer, sem exagero, que Valfrido Silva é uma das lendas vivas do jornalismo de Dourados e do Mato Grosso do Sul. Pelas suas mãos passaram grandes profissionais da imprensa e importantes veículos de comunicação.
Hoje, mesmo trabalhando de forma independente, através de sua página e de seu blog, ele ainda consegue tirar o sono de muita gente poderosa. De políticos influentes. De autoridades que prefeririam o silêncio.
Sua verve, seu estilo e sua personalidade o tornam único.
Admirado por muitos.
Odiado por alguns.
Temido por outros.
Mas nunca deixou de ser — e provavelmente nunca deixará de ser — um grande jornalista.
E assim, entre um gole e outro de cerveja, olhando e admirando a cidade que cresceu diante dos nossos olhos, voltamos no tempo. Recordamos histórias. Rimos de episódios antigos. Revivemos momentos que só quem viveu pode compreender.
Por alguns instantes, não éramos dois homens marcados pela passagem dos anos.
Éramos novamente dois adolescentes, conversando sobre os fatos memoráveis da nossa juventude.
E então compreendi algo simples e profundo:
Assim é a vida.
Assim ela deve ser vivida.
O tempo passa.
Mas as histórias ficam.
E enquanto houver memória, amizade e verdade, ninguém jamais perderá suas raízes.
Ricardo Ojeda
Perfil News
