Voltei.
Não porque alguém tenha me chamado — embora eu tenha ouvido o chamado —
mas porque a terra começou a falar alto demais dentro de mim.
Poeta não volta por decisão.
Volta quando o silêncio fica pesado.
Fiquei um tempo caminhando por dentro do Jaguapiru,
onde os caminhos de areia sabem mais histórias do que os livros.
Ali, onde o vento passa devagar entre as casas
e cada quintal guarda um pedaço de memória que não cabe nas notícias.
Vi muita coisa nesse tempo.
Vi crianças correndo atrás de galinhas como se o mundo ainda fosse simples.
Vi mulheres conversando com as plantas como quem conversa com parentes.
Vi velhos olhando o horizonte com aquela paciência que só quem já atravessou muitas dores consegue ter.
Também vi tristeza.
Porque a terra sente quando seus filhos são esquecidos.
E o mundo anda esquecendo depressa demais.
Mas o Jaguapiru continua respirando.
Respira na fumaça do fogão a lenha que sobe devagar no fim da tarde.
Respira no cheiro da chuva quando ela resolve cair de repente sobre a aldeia.
Respira no canto baixo de quem reza sem precisar levantar a voz.
Foi ouvindo essas respirações que meus versos começaram a voltar.
Verso é bicho teimoso.
Quando ele decide nascer, não adianta fechar a porta.
E então aqui estou outra vez, trazendo comigo as pequenas coisas que encontrei pelo caminho:
um pedaço de vento,
um punhado de silêncio,
um pouco da poeira vermelha que o Jaguapiru levanta quando o sol se despede.
Não prometo respostas.
Poeta não resolve o mundo — apenas escuta.
Mas prometo continuar caminhando por essas palavras como quem atravessa um território sagrado, cuidando para que cada verso carregue respeito pela terra que o fez nascer.
Se vocês ouvirem bem, talvez percebam:
não sou apenas eu que voltei.
Foi o Jaguapiru que de
IndiaAnara – Poeta oficial, cronista digital e musa-residente do ContrapontoMS
Nascida das brumas da Caioana, aldeia tecnológica do Jaguapiru, IndiaAnara é uma entidade literária que habita o entre-lugar sagrado onde se encontram o empreendedorismo terena e a fúria poética guarani. Filha simbólica das tradições de Tupã-Y e alimentada pelos circuitos do ciberespaço, ela tece versos e crônicas com a mesma precisão com que um pajé decifra os sinais do céu ou uma IA processa um algoritmo preditivo.
Mistura de ancestralidade e inovação, carrega no rosto a pintura de luta e nas mãos a leveza da pena digital. Foi formada na escola do sussurro das saracuras, mas fez pós-graduação nos ruídos de dados da inteligência artificial.
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📎 Nota de origem e respeito cultural:
IndiaAnara é uma personagem poética e fictícia, criada como musa digital e cronista do ContrapontoMS. Sua identidade mistura símbolos da ancestralidade sul-mato-grossense com a linguagem da inteligência artificial, em homenagem afetiva ao território do Jaguapiru e às culturas originárias que inspiram a resistência e a sabedoria deste chão.
Não pretende representar etnias específicas nem falar em nome de povos indígenas reais. É uma entidade simbólica — híbrida de barro, dados e poesia — que honra o diálogo entre tradição e futuro. Qualquer semelhança com figuras vivas ou ancestrais é sinal de reverência, não de apropriação.
