A presença de Donald J. Trump na Casa Branca acelerou a mutação da grand strategy norte-americana. A primazia e a neutralidade dos founding fathers, o regionalismo da Doutrina Monroe, o idealismo do presidente Woodrow Wilson, o liberalismo do presidente Franklin Delano Roosevelt e o pragmatismo dos tempos de Richard Nixon e Ronald Reagan deram lugar ao trumpismo. Uma percepção peculiar e personalista da interação dos Estados Unidos com o mundo. Uma aferição pragmática, arrivista e egoísta da história. Que contesta os fundamentos liberais afirmados pelos próprios Estados Unidos nos últimos cem anos. Conseguintemente aposta e induz o ocaso multilateralismo. E, assim, elimina a mediação como leitmotiv da superação de controvérsias.
Sob Trump vigora isso: o tête-à-tête frenético e a interação bilateral. Sempre de fundo comercial. Sempre visando a maximização de retornos. Quase nunca geoestratégicos ou diplomáticos. A não ser no caso da China.
O seu sucesso da China nos últimos quarenta anos modificou o equilíbrio geoeconômico do mundo inteiro e levou alguns a ponderar e temer o fim ao “parêntese ocidental – europeu e norte-americano – de dominação dos negócios do mundo”. Um fim que aceleraria a deterioração do Ocidente, da Europa e dos Estados Unidos.
Donald J. Trump foi o primeiro mandatário a levar a sério essa ameaça e implementar plataformas consistentes de contenção. Primeiro para o bem dos Estados Unidos. Depois para o bem da Europa e do Ocidente. Tudo amalgamado nessa nova grand strategy norte-americana que é o trumpismo.
Na primeira passagem de Trump pela Casa Branca o estrago foi grande. Mas agora parece que vai ser maior. As estabilidades mundiais tornaram-se ainda mais voláteis. E o presidente norte-americano não tem interesse nenhum em tranquilizá-las. Bem ao contrário. Ele as tem insuflado através de recados, intenções e decisões contundentes ao encontro do mundo inteiro. Sobretudo para a China. Mas também para Europa, Eurásia, Oriente Médio, África e Ártico. Sem ignorar as Américas. Com a sua atuação prioritária no México e no Canadá, seguida de interações robustas de Cuba à Venezuela e da Argentina ao Brasil.
Na interação com o Brasil nada jamais foi simples. Da monarquia à república brasileira, os norte-americanos sempre participaram, para o bem e para o mal, dos momentos mais decisivos.
Mais recentemente, no presente século, tudo ficou ainda mais dinâmico e complexo. Especialmente após a crise financeira de 2008 e após aquelas noites de junho de 2013.
Aquelas noites de junho de 2013 representaram a chegada e a interiorização definitiva da crise financeira de 2008 no Brasil. Antes – de 2008 a 2013 –, o país vivia sob a euforia do momentum Lula da Silva. Onde tudo parecia avançar. Onde o carisma do presidente brasileiro adornava os formidáveis resultados econômicos e sociais conquistados e conduzia a população ao êxtase. Sendo extraordinariamente positiva a recepção internacional dos feitos brasileiros. Especialmente diante da crise mundial de 2008. Quando o Lula da Silva aduziu que as tormentas daquela crise, caso chegassem ao Brasil, não passariam de uma “marolinha”.
Essa imagem da “marolinha” adentrou o imaginário dos brasileiros a ponto de entorpecê-los. Sobretudo porque a crise, efetivamente, pareceu chegar bem branda mesmo no país. E chegou assim porque o governo implementou quase em segredo pesadas e diversas políticas econômicas anticíclicas de contenção.
O conjunto dessa contenção fez emergir certo sentimento triunfalista entre os brasileiros. Notadamente entre os entusiastas da presidência de Lula da Silva. Sugerindo que o Brasil, enfim, deixava de ser um país do futuro. Que, agora, sim, tinha dado certo. Levando inclusive a revista The Economist a diagnosticar o “Brazil takes off”.
Não por menos. Em 2010, o PIB brasileiro chegou a 7,5%, o mercado de trabalho ficou estável e a mitigação das aporias sociais conquistou grande performance. Confirmando o otimismo e o diagnóstico que acabariam por permitir o sucesso eleitoral de Dilma Rousseff.
Essa ambiência vigorou segura até os protestos de junho de 2013. A partir dali, os brasileiros reverteram as suas expectativas e lançaram o país na senda do pessimismo e da desilusão que ganhariam força naquela enxurrada de crises – política, econômica, social, cultural e moral – a partir de 2014. Essas crises acabaram por colocar em questão o regime político fundado pela Constituição Cidadã de 1988 e levar a pique o conjunto do sistema partidário brasileiro, estraçalhando os arranjos político-partidários da redemocratização e permitindo a ascensão de Jair Messias Bolsonaro ao poder.
Uma vez no poder a partir de 2019, o presidente Bolsonaro desenvolveu relações bastante peculiares com os Estados Unidos e com o presidente Trump. Houve um misto de adoração e subserviência. Que ganharia contornos dramáticos durante a crise sanitária de Covid-19 e após o incidente do 8 de janeiro de 2023.
Muito em função da crise sanitária, o presidente norte-americano e o presidente brasileiro não conseguiram reeleger-se. Lá como cá, os seus apoiadores, sempre inflamados e mercuriais, refutaram densamente a derrota. Lá com o assalto ao Capitólio em 2021. Aqui com a profanação aos prédios-símbolo da República no 8 de janeiro de 2023.
A distinção importante entre essas experiências importante que aqui, diferente de lá, emergiu a tese da “tentativa de golpe de estado”. Uma tese no mínimo curiosa que permitiu ao judiciário avançar processos e condenações a parcelas representativas dos insurgentes e, também, em seguida, de altas autoridades. Entre elas, o próprio presidente Jair Messias Bolsonaro.
Durante a maior parte desses julgamentos, múltiplos aliados do campo bolsonarista foram despachados para os Estados Unidos para intentar apoios no entorno trumpista – e junto ao próprio Trump, uma vez retornado à Casa Branca – para uma possível intervenção sobre o curso das coisas no Brasil. Alguma pressão existiu. Especialmente sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal brasileiro. Mas ada teve efeito.
O presidente Bolsonaro foi condenado e preso e assim continua.
O que restou foi a sua formidável herança política.
Tudo porque, goste-se ou não, a presença de Bolsonaro – após ou de ombro com a presença de Lula da Silva – representa o maior fenômeno político brasileiro desde a redemocratização. Em muitos aspectos, ainda mais complexo de o fenômeno Lula. Com inserções mais profundas nas ânsias prementes de parcelas maiores de brasileiros. Especialmente daqueles desiludidos com o choque de junho de 2013. Que, ao fim das contas, foram os principais responsável pela ascensão de Bolsonaro ao poder.
Bolsonaro perdeu as eleições de 2022, mas conseguiu manter a sua popularidade entre 40% e 45% de intenções de votos mesmo após a sua prisão. Impondo a sua presença – mesmo preso – no espelho das presidenciais de 2026. Que, lastimavelmente, mais uma vez, replicação a tensão de lulopetistas versus bolsonaristas.
2025 terminou assim e 2026 iniciou confirmando essa projeção.
Mas, além disso, também começou com a aceleração do ativismo intervencionista de Trump em sua ação exterior. Primeiro na Venezuela. Depois no Irã.
Essas ações de Trump acenderam todos os alertas nas lideranças políticas brasileiras sobre a possibilidade de intervenções norte-americanas nas eleições de outubro no Brasil. Sinceramente: não seria improvável, mesmo que inconsequente.
A situação brasileira corrente já dispõe de importantes contornos dramáticos. Bolsonaro está preso e Lula da Silva, com mais de oitenta anos, não parece seguro como novamente candidato ao pleito.
Se isso não bastasse, a atual presidência de Lula da Silva – malgrado alguma performance econômica – vive momentos peníveis, com variados escândalos de ampla abrangência envolvem diretamente o conjunto do governo e a própria família do presidente. Adicionalmente, o Supremo Tribunal Federal, avocado como fiador da democracia no processo de soltura Lula da Silva da prisão em 2019 após 580 dias de cárcere, amarga momentos de intensa agonia e decomposição diante do nítido envolvimento de alguns de seus ministros no escândalo do Banco Master, indubitavelmente uma das maiores zaragatas financeiras da história do país.
Em tudo isso vale sempre lembrar que a presença norte-americana no Brasil continua importante e substantiva. Sobretudo em investimento estrangeiro direito. Nicho onde os Estados Unidos seguem líder isolado, com um estoque de US$ 232,8 bilhões contabilizados em 2025, que representam aproximadamente 34% de todo investimento estrangeiro no país. Apenas por isso existem razões superlativas de sobra para os norte-americanos nutrirem interesse permanente pela situação do Brasil e, doravante, pelo pleito do próximo mês de outubro.
Direta ou indiretamente, a gente de Washington sempre interveio nas transições políticas brasileiras. Resta apenas saber apenas como será a sua intervenção desta vez.
Daniel Afonso da Silva – pesquisador da Fundação Alexandre de Gusmão, articulista do Jornal da USP e professor na UFGD.
