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segunda-feira, março 16, 2026

Trump tenta adivinhar a carta na manga de Razuk

De uma conversa íntima com Roberto Razuk nasce uma reflexão amarga: no grande pôquer da guerra, os poderosos apostam fichas que não lhes pertencem

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Valfrido Silva

Em sua penúltima recaída grave, ao retornar dos Estados Unidos depois de uma séria intervenção cirúrgica cardíaca, tive com o ex-deputado Roberto Razuk uma surpreendente conversa, até porque, foi mais de reflexão do que de política. Razuk, além de motorista de caminhão e piloto de avião, entre tantas outras coisas, sempre foi um grande jogador de pôquer, desses que sabem que numa mesa nem sempre vence quem tem as melhores cartas, mas quem entende o momento de apostar, blefar ou simplesmente esperar. Talvez por isso, mesmo debilitado, mas ainda com aquela lucidez irônica que nunca o abandonou, resolveu puxar um assunto que costuma aparecer quando a vida começa a mostrar suas curvas mais sinuosas: o espiritismo. Estava, já, preocupado com seria sua travessia. Com a liberdade que sempre tive com ele, tentei tranquilizá-lo: fica tranquilo, sua missão por aqui ainda será longa. Ele ouviu, sorriu de leve, mas ficou com a pergunta que realmente importava: mas quando chegar a hora… como será a minha chegada por lá? A resposta que dei não pareceu agradar muito. Disse a ele que provavelmente seria recebido com todas as honras por alguns “amiguinhos” que se foram antes, gente com quem ele andou se entreverando nesta encarnação. Razuk fez aquela pausa típica de jogador avaliando a mesa, talvez passando mentalmente a lista de antigos adversários, e veio com a tréplica que até hoje me faz lembrar do seu humor seco: nesse caso não sei qual seria a melhor hora… mas, vou concordar com você.

Aquela conversa nunca saiu completamente da minha cabeça. Talvez porque, olhando o noticiário do mundo, a sensação seja mesmo a de que a humanidade continua sentada numa gigantesca mesa de pôquer onde alguns poucos líderes apostam fichas que, na verdade, são vidas humanas. Movem tropas, lançam mísseis, ameaçam povos inteiros — sempre em nome de alguma causa grandiosa, alguma verdade absoluta ou alguma segurança nacional que quase nunca chega. O planeta volta a assistir a mais uma rodada desse jogo antigo, em que cada lado acredita estar segurando as cartas decisivas.

E a política, que já anda parecendo um grande cassino global, resolve cruzar com a nossa própria comédia tropical. Depois do tarifaço que impôs ao Brasil por conta de seu amigo Bolsonaro, Donald Trump deixou o “mito” dos trópicos descer ladeira abaixo quando, de repente, “pintou um clima” com Lula. Mas a lua de mel diplomática durou pouco. Bastou Lula impedir a visita de um assessor americano ao ex-presidente na cadeia para que o jogo voltasse a virar. Traído pelo aliado improvável e sem saber exatamente que cartas restam na mesa brasileira, só falta agora Trump recorrer ao velho Razuk para tentar descobrir qual seria a tal carta na manga capaz de resolver também os seus próprios problemas no Golfo Pérsico. Não seria exatamente um absurdo histórico. Afinal, poucos sabem ou se lembram: Razuk também frequentou as mesas de Las Vegas, onde construiu seu império, além da fama de jogador frio e paciente, daqueles capazes de virar uma rodada aparentemente perdida apenas esperando a hora certa de mostrar as cartas — fama que, dizem, chegou aos ouvidos de um certo empresário nova-iorquino que também andava por lá nessa época e que mais tarde acabaria na Casa Branca.

A história, no entanto, costuma ser mais implacável do que qualquer mesa de jogo. Cada guerra abre apenas a porta da próxima. Genocídios não começam apenas quando exércitos atravessam fronteiras; começam quando alguém decide que certas vidas valem menos do que outras. Foi assim no século passado com as ideologias totalitárias, foi assim em guerras religiosas que atravessaram séculos, e continua sendo assim sempre que governantes transformam povos inteiros em peças descartáveis num tabuleiro de poder.

É curioso como cada lado de uma guerra sempre acredita estar lutando pela causa justa. Cada líder se imagina defensor da civilização, da fé, da segurança ou da liberdade. Mas quando a poeira baixa e os discursos desaparecem, o que sobra são sempre as mesmas imagens: cidades destruídas, famílias enterrando seus mortos e gerações inteiras crescendo entre ruínas. Nessa hora volto à conversa com o Razuk e fico imaginando como seria a tal recepção do outro lado da história. Presidentes, aiatolás, generais e revolucionários obrigados finalmente a dividir a mesma sala, olhando nos olhos daqueles que também acreditaram estar do lado certo das bombas.

Talvez algum deles perguntasse, com ironia, quem foi o último a apostar tudo na guerra.

Enquanto isso, aqui embaixo, a política brasileira segue produzindo seus próprios profetas do apocalipse. Já em campanha presidencial pelo filho número um do ex-presidente para a sucessão de Lula, o deputado Rodolfo Nogueira — o famoso Gordinho do Bolsonaro — anda recorrendo ao Velho Testamento para animar a militância. Em tom de pregador bíblico, promete que “Deus vai fazer trovejar sobre o Brasil”, evocando passagens do livro de Samuel como se estivéssemos todos às portas de algum holocausto tropical.

Diante de tudo isso, volto mais uma vez à imagem da mesa de pôquer e à conversa com o velho Razuk. Porque no fundo talvez seja essa a grande ironia da história: enquanto políticos citam profetas e líderes mundiais apostam guerras, quem realmente entende de cartas sabe que o segredo quase nunca está na mão que se mostra. Está sempre na carta que ninguém viu. E que, às vezes, nem existe.

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