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terça-feira, março 17, 2026

A ‘barranca’ do Missionário: Como Dourados virou o laranjal técnico da fé nacional

Da gênese das concessões no Brasil, como Dourados entrou no mapa da televisão, mas ficou fora da divisão dos lucros de sua Rede Internacional de Televisão

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Valfrido Silva

Enquanto esquentava a água para o primeiro café do dia, vislumbrava ao longe, por cima dos condomínios fechados que avançam sobre o meu Jaguapiru, a torre da RIT — a Rede Internacional de Televisão — e me veio à memória a minha própria história com ela, ainda TV Caiuás, que remonta aos seus primórdios, ainda filha legítima de José Elias Moreira, nascida no mesmo caldo político que gestou o Centrão no Congresso Nacional, quando o onipresente ACM, Antônio Carlos Magalhães, comandava o Ministério das Comunicações no governo Sarney. Era um Brasil em que concessão de TV não era apenas negócio: era moeda política, poder e influência empilhados em forma de antena.

A história se repete no Mato Grosso do Sul como uma piada de mau gosto contada num balcão de bar, entre um gole de tereré e uma tragada de saudade. Na época da construção de Itaipu, dizia-se à boca pequena que o negócio era a maior simbiose do continente: o Brasil entrava com o dinheiro, a engenharia e a dívida, enquanto o Paraguai entrava generosamente com a barranca do Rio Paraná. Décadas depois, aqui em Dourados, a segunda cidade do Mato Grosso do Sul assistiria a uma reedição desse “acordo binacional” de um homem só.

Quando fui convocado pelo lendário Arceno Athas — o homem que deu régua e compasso à TV Morena antes de se aventurar na estruturação da TV Caiuás — para escrever a “literatura” que seduziria o reverendo R.R. Soares para investir em Dourados, abri o texto evocando Pero Vaz de Caminha: “nesta terra, em se plantando, tudo dá”. E como deu. O missionário olhou para a pequena retransmissora da Band, uma “galinha morta” que passou pelas mãos do grupo do Correio do Estado e enxergou ali o seu Canaã midiático. Criou a RIT, a Rede Internacional de Televisão, com sede jurídica na terra de seu Marcelino.

Mas o milagre da multiplicação dos pães, neste caso, acontece com o sinal de satélite: a concessão é douradense, o “corpo” da emissora ocupa o nosso solo, mas a alma, o faturamento e o dízimo batem ponto, em São Paulo, onde fica o sistema operacional, e no Rio, a sede administrativa. Ou seja, enquanto a RIT deveria projetar o nome da segunda maior cidade do Mato Grosso do Sul para o Brasil e o mundo, já que é “internacional”, o “dízimo” tributário pega o atalho da Via Dutra e deixa para o município apenas o papel de figurante de luxo em uma concessão de milhões, com uma programação basicamente ancorada em cultos religiosos, diga-se de passagem.

Dourados, ficou, assim, como a barranca do Rio Paraná de R.R. Soares. Geramos para o Brasil inteiro, do Oiapoque ao Chuí, mas na hora de passar o chapéu do ISS no município, o silêncio é de catedral em dia de segunda-feira. A prefeitura diz que não há contencioso — o que é quase pior do que uma disputa judicial. Significa que aceitamos, com uma resignação quase litúrgica, o papel de figurantes numa potência internacional que usa nosso CEP como um “laranjal técnico” para reduzir custos de uma geradora que opera no eixo Rio-São Paulo.

O reverendo plantou a fé e colheu uma rede nacional de baixo custo. Dourados, fiel à sina descrita por Caminha, continua sendo a terra onde tudo dá, inclusive o benefício fiscal de quem usa a nossa antena para retransmitir de São Paulo para o mundo. Se pelo menos deixassem para nós o consolo simbólico de ver o nome da cidade nos créditos finais… Mas nem isso! O imposto real, aquele que vira asfalto, remédio e escola, esse segue viagem.

É a prova de que, na literatura da vida real, o encantamento vira engenharia tributária. E que, no grande roteiro das concessões brasileiras — das gigantes Globo, SBT e Band às pequenas e improváveis redes do interior — a lógica raramente muda: alguém planta a estrutura, outro colhe o resultado. Tudo, claro, “em nome de Jesus”, conforme o bordão de R.R. Soares.

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