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quarta-feira, março 18, 2026

Alô você! Até quando Dourados será refém da ‘TV Morena’?

Legislação eleitoral obriga Dourados a assistir à propaganda de Ponta Porã, enquanto o faturamento local sustenta uma emissora de fora

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Valfrido Silva

Já cansei de escrever isso aqui, sempre em ano de eleição municipal, quando o problema salta aos olhos como propaganda em horário nobre. Quem sabe agora, a propósito do post da “barranca do Missionário”, martelando o assunto com a devida antecedência, suas excelências, deputados federais e senadores, resolvam tomar tento e mexer numa legislação que, no caso de Dourados, não chega a ser um equívoco técnico: é quase uma afronta política com selo de legalidade.

A regra é simples, dessas que cabem num guardanapo de boteco: o horário eleitoral gratuito para prefeito e vereador só é transmitido nas cidades onde a emissora tem geradora, a tal da cabeça de rede. E é justamente aí que surge o “pobrema”, como diria meu sogro, o saudoso eletricista Manoel Torquato, homem que nunca precisou de lei federal para entender quando a fiação estava mal feita.

Dourados, a segunda maior cidade do Mato Grosso do Sul, simplesmente não tem geradora da Globo. O sinal que chega por aqui vem de Ponta Porã, via “TV Morena”, que é de Campo Grande. Resultado: em pleno período eleitoral, o eleitor douradense senta no sofá, liga a televisão e assiste, compulsoriamente, aos programas dos candidatos de outra cidade. É como se, além de votar, ainda tivesse que torcer fora de casa.

Sim, é isso mesmo. A capital econômica do Estado, segundo maior colégio eleitoral, assiste à propaganda eleitoral de Ponta Porã como quem acompanha as novelas do “Vale a pena ver de novo”, sem poder trocar de canal.

Mas essa história não começou ontem. Ela vem lá dos tempos da Constituinte, quando o então deputado federal José Elias Moreira tentou puxar para sua TV Caiuás — retransmissora da Band — a programação da Globo. Até ali, tudo funcionava dentro da lógica: o sinal vinha de Campo Grande, pela TV Morena.

Zé Elias tinha trânsito. Era amigo de Antônio Carlos Magalhães, o ACM, ministro das Comunicações de Sarney e dono de uma caneta que valia mais do que qualquer antena. ACM foi lá, conversou com Roberto Marinho e abriu a exceção. O jogo parecia ganho.

Mas esqueceram de combinar com outro jogador da mesa, primo de Roberto Razuk, também bom jogador de pôquer. E de truco! Também no Centrão, também constituinte: Gandhi Jamil, genro de Ueze Zahran, o todo-poderoso da TV Morena. E, detalhe que em política nunca é detalhe: com domicílio eleitoral em Ponta Porã, terra também da família Pelufo, berço da esposa de “seu Ueze”.

Convenhamos: como ACM diria não a Ponta Porã? Resultado: nasce a TV Ponta Porã. Não uma simples repetidora, como a de Dourados, mas uma geradora de fato. E ali, sem muito alarde, o projeto de Zé Elias foi para o vinagre.

Repetindo o velho Manoel Torquato, foi aí que surgiu não apenas um “pobrema”, mas dois — e dos grandes.

O primeiro é eleitoral. A cada eleição municipal, o douradense é obrigado a assistir ao desfile de candidatos de Ponta Porã, como se fosse eleitor da fronteira. Um tipo de cidadania televisiva invertida, onde você mora num lugar e vota assistindo campanha de outro.

O segundo é econômico — e talvez ainda mais indigesto. Cerca de 80% do faturamento da TV Ponta Porã, senão mais, sai do comércio de Dourados. Mas os impostos? Esses fazem o caminho inverso: ficam todos por lá, na cidade fronteiriça. Um roteiro que, como já mostramos no caso da RIT, virou quase tradição local: Dourados produz, outros arrecadam.

E assim seguimos, com a naturalidade de quem já se acostumou ao absurdo: sem geradora de TV — porque a RIT, com audiência de altar, não entra nessa conta — sem voz no horário eleitoral e ainda financiando, com o próprio comércio, uma emissora que legalmente pertence a outra praça.

O mais curioso, ou talvez o mais revelador, é que esse “problema técnico” já foi resolvido lá atrás. Na emblemática campanha de 1988, na famosa virada de Braz Melo sobre Zé Elias, não apenas produzi os programas eleitorais na ilha de edição da sucursal da TV Morena, em Dourados, como também veiculamos, naquele ano, a propaganda dos candidatos locais dentro da programação da própria emissora.

Portanto, se os legisladores e os técnicos — esses que sempre invocam dificuldades que misteriosamente desaparecem quando é para cortar o sinal da rede e inserir conteúdo local — ainda não descobriram o caminho, é simples: mandem um WhatsApp aqui para o insubordinado do jornalismo que ele ensina.

Como já ensinava o véio Mané Torquato, tem coisa aí que não é falta de tecnologia. É só fiação mal feita mesmo. A menos, claro, que um “alô você” do sobrinho mais famoso do simplório eletricista da Maxwell aos congressistas resolva o “probrema”, provando que, no fim das contas, o curto nunca foi na rede, mas na vontade política.

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