A eleição da Universidade Federal da Grande Dourados entra na sua última semana com um ingrediente que nem sempre esteve presente em disputas acadêmicas: o esforço de trazer o debate para além dos corredores e colocá-lo no campo concreto das ideias, dos números e, principalmente, do futuro da instituição. No meio desse cenário, o candidato Etienne Biasotto, da Chapa 1 – Avançar UFGD, tenta se posicionar menos como herdeiro de uma gestão e mais como alguém disposto a traduzir resultados em novos passos — o que, convenhamos, é sempre mais fácil de dizer do que de sustentar quando a campanha começa a apertar.
Nos debates organizados pela Comissão de Consulta Prévia, que garantiram igualdade de espaço entre as chapas, Etienne adotou uma linha clara: olhar para o que já foi feito sem transformar isso em muleta, mas também sem cair na tentação, tão comum em períodos eleitorais, de reinventar a roda a cada fala. Logo na abertura, foi direto ao ponto ao afirmar que a universidade avançou nos últimos anos, mas que o desafio agora é dar escala a esses avanços, ampliando acesso, permanência e qualidade — três palavras que, no ambiente universitário, carregam mais peso do que parecem à primeira vista.
E não faltaram números para sustentar o discurso. Entre 2022 e 2025, a UFGD viu o número de ingressantes saltar de 1.433 para 2.436 estudantes, um crescimento de 70% que não se explica apenas por vontade política, mas por uma combinação de oferta de vagas e políticas de inclusão. Nesse pacote, entram 210 novas vagas em cursos que dialogam diretamente com realidades muitas vezes invisibilizadas, como Educação Quilombola, Pedagogia Intercultural Indígena e Agroecologia — áreas que, mais do que formar profissionais, ajudam a universidade a se reconhecer no território onde está inserida.
Mas, como o próprio candidato fez questão de destacar, acesso sem permanência é estatística vazia. E é aí que entra um dos pontos mais sensíveis do debate: a assistência estudantil. Segundo os dados apresentados, a Bolsa Permanência saiu de 154 para 484 beneficiários, os auxílios do PNAES cresceram de 653 para 988 estudantes e os benefícios com recursos próprios deram um salto ainda mais expressivo, de 55 para 330. No meio disso, decisões que parecem simples — como manter o Restaurante Universitário a R$ 1 para estudantes em situação de vulnerabilidade ou retomar o café da manhã subsidiado — acabam tendo um impacto muito mais profundo do que qualquer discurso bem ensaiado.
Na pós-graduação, o movimento segue a mesma lógica de expansão: as bolsas passaram de 374 para 579, cinco novos doutorados foram criados e o número de estudantes internacionais cresceu 1.000%, um dado que chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pelo que representa em termos de inserção da universidade no cenário global. As matrículas também avançaram, com crescimento de 12% no mestrado e 40% no doutorado, sinalizando que a UFGD começa a consolidar um caminho que vai além da graduação.
Quando o assunto é pesquisa e inovação — terreno onde universidades costumam medir sua capacidade de futuro —, Etienne destacou o aumento de 52% nas bolsas de iniciação científica, que passaram de 320 para 487. É um tipo de investimento que não aparece de imediato no cotidiano, mas que define, lá na frente, a relevância da instituição. Afinal, universidade que não pesquisa vira escola grande; universidade que pesquisa define rumos.
Os números financeiros também entraram na conta. Segundo o candidato, a UFGD captou R$ 22 milhões em recursos externos, além de R$ 13 milhões via PAC para a construção de laboratórios de engenharia. Soma-se a isso R$ 1 milhão em equipamentos de ar-condicionado — um detalhe nada trivial em Dourados — e R$ 1,6 milhão em tecnologia para gestão do patrimônio, numa tentativa de organizar a casa por dentro enquanto cresce por fora.
Ao longo dos debates, Etienne manteve um discurso que tenta equilibrar continuidade e avanço, sem cair no clichê fácil de campanha que promete tudo para todos. Falou em inovação, inclusão e qualidade, mas também em diálogo institucional e valorização da comunidade universitária — conceitos que, se não resolvem tudo, ao menos indicam um caminho menos ruidoso e mais consistente.
No fim das contas, o que está em jogo na UFGD não é apenas a escolha de um nome para a reitoria, mas a definição de qual universidade se quer construir nos próximos anos. E, como toda eleição acadêmica, essa também carrega suas disputas, suas leituras e seus silêncios. A diferença, desta vez, é que os números entraram na mesa.
E, quando isso acontece, o debate tende a sair do campo das intenções e entrar, finalmente, no território da responsabilidade.
