Na política há frases que parecem simples, mas carregam mais do que dizem. Ao afirmar que “o jogo para o Senado está zerado”, o senador Nelsinho Trad tenta nivelar uma disputa que, na prática, nunca começa exatamente do mesmo ponto para todos. Porque, se é verdade que a largada oficial depende das definições partidárias, também é fato que há quem entre em campo com quilômetros de estrada já percorridos enquanto outros ainda tentam amarrar as chuteiras.
Foi nesse tom que o senador conversou com o jornalista Alfredo Barbara Neto, neste retorno de O Progresso (agora só digital), durante visita a Dourados esta semana, ao afirmar que o jogo recomeça com a definição das candidaturas. Mas Nelsinho Trad fez questão de acrescentar, quase como quem não quer dizer, mas já dizendo, que enquanto alguns ainda vão prometer, ele já entregou. Tradução livre: campanha começa zerada no papel, mas não necessariamente na memória do eleitor. E memória, em eleição majoritária, costuma pesar.
O senador aposta justamente nisso ao falar em base consolidada no Estado e ao projetar uma disputa que, segundo ele, ainda deve passar por depuração natural. Ele não acredita que a direita vá para o embate com quatro nomes, citando Marcos Pollon, Capitão Contar, Gianni Nogueira e, claro, o ex-governador Reinaldo Azambuja, o candidato do establishment.
Azambuja, aliás, é daqueles personagens que nunca saem completamente de cena. Fica ali, rondando o tabuleiro, como quem conhece bem os atalhos do poder, embora, desta vez, talvez descubra que experiência nem sempre é sinônimo de vantagem quando o eleitor resolve olhar para frente em vez de rever o passado. Até aqui, a vantagem mais concreta parece ser a de viajar bem acompanhado — no jatinho de Riedel pelo interior, como fez recentemente para Dourados e, de quebra, na carona política do governo que ajudou a construir.
Enquanto isso, Nelsinho tenta ocupar um espaço cada vez mais raro na política nacional: o do candidato que não se apresenta como trincheira ideológica. Diz não ser radical, apoiou Jair Bolsonaro, hoje ajuda o governo atual e defende o fim da polarização — discurso que, se por um lado pode parecer conveniente, por outro dialoga com um eleitorado cansado de escolher lados como se estivesse em final de campeonato.
E aí entra um ingrediente que nem o melhor marqueteiro conseguiria inventar: dentro de casa, o senador terá um irmão disputando o governo pelo campo oposto. Fábio Trad, advogado e ex-presidente da OAB-MS, deve entrar na corrida pelo PT, enquanto Nelsinho caminha ao lado do governador Eduardo Riedel. Uma divisão doméstica que, nas palavras do próprio senador, se resolve com a maturidade de quem aconselha sabendo que conselho, em política — e em família —, raramente é seguido.
No giro por Dourados, Nelsinho fez o roteiro esperado de quem está afinando a engrenagem para o que vem pela frente: reunião com vereadores, prestação de contas, visita a obras viabilizadas por emenda, agenda institucional na prefeitura e encontros com lideranças políticas e sindicais. Nada fora do script, mas tudo dentro do que costuma definir quem chega competitivo a uma eleição majoritária.
Até porque o “jogo zerado” de que fala o senador talvez seja mais uma forma elegante de dizer que a disputa ainda está aberta. Aberta, sim. Zerada, nem tanto.
