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segunda-feira, março 23, 2026

Adeus, Jospin

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Daniel Afonso da Silva *

A morte de Lionel Jospin (1937-2026) – sucedida no último domingo, 22 de março de 2026, em Paris – sacramenta o desaparecimento de um dos maiores tenores da esquerda socialista francesa e mundial dos últimos cinquenta anos. Herdeiro e guardião da essência do Partido Socialista que conduziu François Mitterrand (1916-1996) à presidência da França em 1981, ele foi a referência moral, cultural, intelectual, política e técnica de uma certa ideia da esquerda no poder.

Primeiro-secretário do Partido Socialista, Ministro da Educação em 1987, candidato à Presidência da República em 1995, Primeiro-Ministro de 1997 a 2002 e novamente candidato à Presidência da República em 2002, ao lado de Michel Rocard (1930-2016), ele foi o último inventariante de certa esquerda francesa unida.

Determinante para o sucesso presidencial dos socialistas em 1981, ele ajudou a superar o monopólio político gaullista sob a Quinta República Francesa, protagonizando o retorno da esquerda ao poder no país após 1936 e após a fundação da nova república em 1958.

François Mitterrand disputara as presidenciais de 1965 ante o general De Gaulle (1890-1970) e de 1974 ante Vallery Giscard d’Estaing (1926-2020) conseguindo aceder ao Élysée apenas em 1981.

Foi um momento mágico para a França e para o mundo.

A guerra fria era uma realidade. A União Soviética seguia ereta e pujante. A revolução iraniana e a invasão do Afeganistão eram a aguarrás do tempo. A tensão Leste-Oeste seguia mais viva que nunca. As hesitações do presidente Jimmy Carter (1924-2024) haviam permitido a ascensão de Ronald Reagan (1911-2004) à presidência dos Estados Unidos tanto quanto a entropia social britânica tinha possibilitado a chegada de Margareth Thatcher (1925-2013) à 10 Downing Street em Londres.

Reagan e Thatcher vinham promovendo uma ampla renovação da ambiência política no Ocidente através de tônicas liberais e liberalizantes. Reafirmando, assim, o embate entre o Mundo Livre e o Mundo Socialista e pressionando as esquerdas ao ostracismo.

Nesse contexto, o sucesso dos socialistas na França representou uma nítida alteração de tendência. Causando furor no mundo inteiro ao posicionar a França como contraponto ideológico e moral no interior das grandes democracias do mundo.

François Mitterrand e os socialistas permaneceriam no poder até 1995 e forjariam uma verdadeira mudança de mundos. Primeiro na França. Adiante na Europa. E, por fim, em todas as partes.

A chamada “geração Mitterrand” simbolizou a chegada da geração babyboomer de maio de 1968 chegando ao poder na França. No campo europeu, a forte aproximação com a Alemanha acelerou a abertura do Muro de Berlim e a concretização dos acordos de Maastricht que dariam vazão à transição da Europa de nações à União Europeia e à zona do euro. No espaço planetário, aos pés do Muro, essa França socialista serviu de fator de acomodação das trepidações angustiantes do desaparecimento do socialismo real que tangia o mundo desde 1917.

A presença de Lionel Jospin nisso tudo foi mais que significativa: foi decisiva e espetacular.

Diplomata e quadro do Quai d’Orsay na origem, ele conhecia como ninguém as rolagens do mundo assim como as suas sensibilidades. Atuando, conseguintemente, com perícia, ele representou certo elo perdido entre socialistas e antagonistas em todas as partes de todos os continentes. Visto que, naquele período, a França ainda tinha muito a dizer.

Com a aproximação do fim do segundo mandato da presidência de François Mitterrand, Lionel Jospin foi ungido o líder natural dos socialistas para disputar a sucessão presidencial contra Jacques Chirac (1931-2019).

Jacques Chirac era o expoente do partido gaullista e havia sido derrotado nas presidenciais de 1981 e 1988 ante François Mitterrand.  Mais que isso, além de maire de Paris, ele havia sido Primeiro-Ministro de François Mitterrand durante a primeira coabitação francesa levada a curso entre 1986 e 1988 e, agora, mas forte e mais determinado, ele teria como oponente o principal herdeiro político dos socialistas. Não foi simples. Mas Lionel Jospin foi batido e Jacques Chirac levou a melhor.

Esse insucesso dos socialistas em 1995 e a morte de François Mitterrand em 1996 impuseram, de toda sorte, a Lionel Jospin a responsabilidade de conter a dispersão das esquerdas e sobretudo a guerra de chefes no interior do Partido Socialista. Uma tarefa nada trivial. Mas que se mostrou exitosa. Especialmente ao permitir a conquista de maioria parlamentar dos socialistas no pleito legislativo de 1997, após a fatídica dissolução da Assembleia Nacional.

Essa situação induziu o presidente Jacques Chirac a formular uma nova coabitação, convocando o líder dos socialistas, no caso, o próprio Lionel Jospin, para a condição de Primeiro-Ministro.

Nessa condição de 1997 a 2002, Lionel Jospin mobilizou todas as tendências comunistas, socialistas e ecologistas para compor os ministérios. Essa mobilização permitiu a afirmação de esquerdas plurais no poder e a galvanização de seu nome como favorito para as presidenciais de 2002.

Também desse período advieram numerosas reformas estruturais na França. Entre elas, o estabelecimento do regime de trabalho de 35 horas semanais e a manutenção de um crescimento econômico superior a 2% ao ano.

Candidato favorito ante Jacques Chirac em 2002, Lionel Jospin acabou eliminado, ainda em primeiro turno, pela ascensão fulgurante de Jean-Marie Le Pen (1928-2025). Consequentemente, ele decidiu retirar-se da vida política, pondo fim a uma das trajetórias socialistas mais exemplares de todos os tempos. Uma trajetória riquíssima que começou no trotskismo, moveu-se ao socialismo e afirmou-se como paradigma de integridade da esquerda no poder.

Por tudo isso, esquerdistas e não esquerdistas amanheceram comovidos nesta segunda-feira, 23 de março de 2026. A notícia da morte de Lionel Jospin avivou instantaneamente em todos a nostalgia de um tempo que não existe mais. Um tempo em que a política era altaneira e exigia de seus agentes verdadeiros atributos de inteligência, rigor, decência e competência. Um tempo em que a política não era para amadores tampouco oportunistas.

A ejecção de Lionel Jospin da política em 2002 simbolizou o início de certa normalização da mediocridade na política em geral e na ação das esquerdas em particular. Os agentes políticos, notadamente franceses, foram progressivamente diminuindo em estatura, qualidade, inteligência e convicção. As esquerdas perderam a sua capacidade de harmonização e o Partido Socialista sucumbiu às misérias do cotidiano. Trazendo a França a esse malaise hodierno insistente de uma sociedade cada vez mais fraturada, mais desesperada e mais enojada com a política e com os seus políticos.

Lionel Jospin faz falta. Doravante, ainda mais.

Adeus, Jospin.

(*) Pesquisador da Fundação Alexandre de Gusmão, articulista do Jornal da USP e professor na UFGD.

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