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segunda-feira, março 23, 2026

Delação de Vorcaro pode demolir candidaturas e encerrar carreiras no governo, Congresso e STF

"Eu sei o que você fez no verão passado". Este texto é da newsletter de Thomas Traumann, enviada toda segunda-feira de manhã com uma análise do cenário político na semana que se inicia

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A anunciada delação do banqueiro Daniel Vorcaro é capaz de demolir candidaturas e encerrar carreiras no governo, no Congresso e no Supremo Tribunal Federal. Mas, mais ainda, num país onde o presidente será escolhido por poucos milhões de votos, Vorcaro será um fator chave na definição do resultado, ao lado do impacto do preço do petróleo na economia, da sensação de insegurança nas ruas e da eventual interferência de Donald Trump. Só que diferente dos outros fatores, a delação de Vorcaro tem potencial que vai além de outubro e pode gerar uma crise institucional com consequências futuras.

Desde que Vorcaro foi preso, o Congresso parou. Não há mais sessões presenciais e nada de relevante está sendo votado. Enquanto o resto do Brasil se preocupa com os preços dos combustíveis, deputados, senadores, ministros do governo e ministros do STF tentam adivinhar qual o rumo das acusações, se é que haverá um. Sem ainda saber as provas que Vorcaro acumulou ou o que a Polícia Federal já coletou, o establishment político se articula para tentar traçar uma linha limite para a delação.

Por partes.

Dono do banco Master, Vorcaro é o primeiro delator que terá de falar sobre seu relacionamento com três ministros do Supremo Tribunal Federal — pela ordem de surgimento no caso, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Kássio Nunes Marques. Para lembrar:

Dias Toffoli tem uma empresa familiar que fez negócios com um fundo ligado ao universo do Master e, como relator do caso no STF, passou dois meses usando estratagemas para dificultar as investigações e resguardar Vorcaro.

O jornal O Globo mostrou uma troca de mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes no dia de sua primeira prisão, em novembro. Como revelou a colunista Malu Gaspar, o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci, recebeu R$ 80 milhões do Master por dois anos de serviços ainda mal explicados.

Mais novo no grupo, Kássio Nunes Marques também tem elos familiares com o escândalo. Os repórteres Vinícius Valfré, Aguirre Talento e Levy Teles, do Estadão, descobriram que seu filho Kevin — 25 anos, dois anos de advocacia — recebeu R$ 281 mil da empresa Consult, contratada por R$ 18 milhões do Master e da JBS. O repórter Breno Pires, da revista Piauí, mostrou que Kevin é sócio do filho do dono da Consult.

Nunca um delator teve tamanho poder nas mãos.

Brasília está acostumada a denúncias contra políticos — estejam eles no Congresso ou no governo —, mas nunca lidou com uma situação em que ministros do Supremo, os julgadores de última instância, façam parte do problema. Isso leva o jogo para um terreno desconhecido, onde as velhas estratégias de sobrevivência não dão garantia.

Como qualquer colaborador, Vorcaro terá de oferecer à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República e ao ministro do STF André Mendonça elementos que avancem em relação ao que já se sabe e ao que ainda se saberá na quebra dos sigilos bancários e de dados de celulares. Esta não poderá ser uma delação do “ouvi dizer”, como ocorreu tantas vezes na Operação Lava-Jato.

O depoimento terá de ser aceito pelo procurador-geral Paulo Gonet, que deve o seu cargo à amizade com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes. Até agora, Gonet atuou mais como um defensor do que um procurador. Em dezembro, ele arquivou o pedido para investigar Alexandre de Moraes pelo contrato da mulher. Em janeiro, arquivou os pedidos para afastar Dias Toffoli da relatoria do caso. Em março, ele pediu mais tempo para analisar o pedido de prisão de Vorcaro, embora os documentos da PF apontassem risco à integridade física de desafetos do banqueiro.

Em seguida, a delação poderá ser examinada na Segunda Turma do Supremo, onde estão Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Kássio Nunes Marques, ou no plenário. Em 135 anos, o Supremo nunca lidou com denúncias de corrupção de seus próprios integrantes. Corre o risco de ter de fazer isso durante uma campanha eleitoral na qual a defesa do impeachment de um ministro do Supremo será ativo eleitoral de dezenas de candidatos da direita ao Senado. Se o STF adiar a análise da delação para 2027, corre o risco de fazer isso ao mesmo tempo que terá de lidar com um Senado sedento por sangue.

O benchmark histórico sobre delações premiadas e seus efeitos é a Operação Lava-Jato. Mas o caso Master guarda singularidades. Em 2014, a delação era um instrumento novo, por isso políticos e demais alvos dos delatores não sabiam o que esperar. Hoje, Brasília toda sabe como é difícil se explicar diante de um delator.

Há diferenças também de método. Ao prender uma funcionária da Odebrecht, os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato tiveram acesso aos sistemas de controle de propina da empreiteira. Políticos recebiam pagamentos via caixa dois ou em contas secretas no exterior para atuar em favor da empreiteira em governos e no Congresso. O caso do Master é diferente. Todos tinham contrato com nota fiscal. De novo, por partes:

O escritório do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), tinha um contrato de R$ 38 milhões com o banco. Como governador, Ibaneis autorizou que o banco estatal do Distrito Federal, o BRB, comprasse R$ 12,1 bilhões de títulos podres do Master. Para ajudar Vorcaro, Ibaneis quebrou um banco que operava há 60 anos.

A cunhada do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), tomou um empréstimo de R$ 22 milhões no Master para compra de um terreno em João Pessoa.

O Banco Master pagou R$ 11 milhões à empresa da nora do senador Jaques Wagner (PT) por serviços de prospecção de operações de crédito consignado.

O vice-presidente do União Brasil e candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da gestora Reag, parceira do banco, por meio de um contrato de consultoria.

Depois de negar relação financeira com Vorcaro, o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, reconheceu que seu escritório de advocacia mantinha um contrato com o banco. Os valores não foram revelados. Ainda.

O ex-ministro Guido Mantega recebia R$ 1 milhão mensais como consultor. Foi Mantega que levou Vorcaro para um encontro com o presidente Lula.

O escritório de advocacia dos filhos do ex-ministro Ricardo Lewandowski recebeu R$ 6 milhões ao longo de dois anos de contrato.

O ex-presidente Michel Temer foi contratado pelo Master para, segundo ele mesmo, “mediar” a negociação entre o banco e o governo do Distrito Federal.

Diretor de fiscalização do Banco Central entre 2017 e 2023 (nas gestões de Ilan Goldfajn e Roberto Campos Neto), Paulo Sérgio Neves de Souza atuava como quinta coluna de Vorcaro. Souza assentiu a compra de Vorcaro do Banco Máxima e depois autorizou o Master a operar como banco. De acordo com a PF, enquanto trabalhava no BC, Souza recebia valores mensais para repassar informações internas. A vida dupla de Souza só foi descoberta por investigação instaurada por Gabriel Galípolo.

Há duas opções: ou Vorcaro diz que tinha uma predileção especial por políticos e parentes de juízes como prestadores de serviços ou confessa que os contratou por motivos não-republicanos. Caberá aos contratados desmenti-lo.

Há outros políticos que devem explicações:

Chamado por Vorcaro de “grande amigo de vida”, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou a “emenda Master”, projeto que quadruplicaria o valor mínimo de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), o eixo das fraudes.

Em novembro de 2025, dias antes da primeira prisão de Vorcaro, o deputado Filipe Barros (PL) apresentou um projeto de lei igual ao de Ciro Nogueira para ressuscitar a “emenda Master”.

Quando o Banco Central resistia ao assédio do Master para autorizar sua compra pelo BRB, os deputados Dr. Luizinho e Claudio Cajado (ambos do PP) apresentaram proposta para dar à Câmara autorização para afastar diretores do BC.

O governador Cláudio Castro (PL) autorizou o fundo de pensão dos servidores do Estado, o Rioprevidência, a desperdiçar R$ 900 milhões em letras podres do Master.

Sob a gestão do governador do Amapá, Clécio Luís (União Brasil), o fundo Amapá Previdência comprou R$ 400 milhões de papéis do Master. O fundo é controlado por aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil).

O fundo de previdência da prefeitura de Maceió, comandada por João Henrique Caldas (PL), torrou R$ 97 milhões em letras financeiras do Master.

Pretexto inicial para que o caso Master fosse investigado pelo STF, o deputado João Carlos Bacelar (PL) negociava com Vorcaro a venda de um terreno em Trancoso, na Bahia.

Outra novidade do escândalo é o envolvimento de uma igreja, a unidade do Belvedere da Igreja Batista da Lagoinha. Cunhado e braço direito de Vorcaro, o pastor Fabiano Zettel transferiu R$ 40,9 milhões para a unidade. A igreja fechou suas portas no dia 15, duas semanas depois da prisão de Zettel.

Tornou-se comum dizer que a Operação Lava-Jato reavivou o sentimento antissistema que levou à ascensão de Jair Bolsonaro. Duas eleições depois, as relações de Daniel Vorcaro, um arrivista de ascensão meteórica, com os Três Poderes podem causar mais danos à República do que toda a Lava-Jato.

Thomas Traumann/O Globo

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