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sexta-feira, março 27, 2026

O ‘agente secreto’ no ‘surubão’ do Parque dos Poderes

Um filme que não se sustenta — num país onde até o absurdo da vida real parece melhor roteirizado

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Valfrido Silva

Confesso, sem qualquer constrangimento intelectual, que fui derrotado pela expectativa, essa entidade traiçoeira que costuma prometer mais do que entregar, especialmente quando envolve cinema brasileiro com pretensão de Oscar. Esperei, como quem aguarda final de Copa, a chegada de O Agente Secreto ao Cine Araújo do Avenida Center, porque certos rituais ainda resistem à modernidade líquida: tela grande, pipoca, guaraná e aquele silêncio cúmplice antes da primeira cena. Mas a vida, como o futebol recente da seleção brasileira de futebol, tem se encarregado de ensinar que esperar demais costuma ser um erro estratégico.

Depois de assistir à França pintar dois gols em Boston — Mbappé e companhia brincando de videogame enquanto a defesa brasileira parecia estar em modo tutorial — resolvi que já havia frustração suficiente acumulada e parti para o streaming. Afinal, se era para sofrer, que fosse sem deslocamento e com controle remoto à mão.

E foi um acerto. Não pelo filme, evidentemente, mas pela possibilidade de pausar, respirar e tentar entender o que, exatamente, estava sendo exibido na tela.

Porque O Agente Secreto, essa obra que chegou cercada de expectativas, indicações e reverências antecipadas, consegue a proeza de ser confuso sem ser complexo, lento sem ser profundo e pretensioso sem entregar substância. É um filme que não começa, não desenvolve e, sobretudo, não termina — ele simplesmente acontece, como certas reuniões de condomínio em que ninguém sabe exatamente por que está ali, mas todos fingem entender.

Logo na largada, uma infração de trânsito digna de multa em dobro: o fusquinha do personagem de Wagner Moura ultrapassa caminhão em faixa contínua, como quem avisa que dali pra frente a lógica será tratada como sugestão, não como regra. E não foi só a direção que ignorou o código de trânsito. O roteiro fez o mesmo com qualquer noção de coerência narrativa. A menos que o orçamento não tenha comportado um continuísta — aquele profissional cuja função é, justamente, impedir esse tipo de incoerência.

Quem matou quem? Houve assassinato? O tal agente secreto é secreto de quê? De quem? Para quem? Perguntas que, em um bom filme, conduzem o espectador; aqui, apenas o abandonam.

E o problema não é exigir demais. É receber de menos.

Há ainda os momentos em que a produção parece brincar com o tempo histórico como quem mistura datas em conversa de bar. A represa Sérgio Motta surge como cenário de desova num período em que, simplesmente, não existia. Um detalhe, dirão os mais generosos. Pois é justamente nesses “detalhes” que se mede o respeito com quem assiste.

Mas talvez o maior desperdício não esteja nos erros factuais, e sim naquilo que o filme se recusa a ser. Kleber Mendonça tinha nas mãos matéria-prima de sobra: o regime militar, suas sombras, seus silêncios, suas violências mal resolvidas. Poderia ter feito um filme incômodo, necessário, cortante. Preferiu, ao que tudo indica, entregar uma colagem de intenções.

E intenção, como sabemos, não ganha Oscar. Nem sustenta roteiro, muito menos prende espectador.

A certa altura, confesso, deixei de tentar entender o filme e passei a observá-lo como fenômeno. Como esses jogos ruins que a gente assiste mais por teimosia do que por interesse. E foi aí que a imaginação começou a trabalhar, porque, quando a narrativa não se sustenta, o cérebro do espectador assume a direção.

E pensei, com a serenidade de quem já viu coisa pior: será mesmo que aquela orgia ambientada no Recife não foi filmada mais perto do que se imagina? Será que a locação não foi ali, discretamente, no estacionamento do Centro de Convenções Raul Gil de Camilo, no coração do Parque dos Poderes, em nossa capital morena?

Porque, sejamos francos, se há algo que funciona com precisão cirúrgica neste país, não é a ficção. É a realidade. E nela, o chamado “surubão do Parque dos Poderes” dispensa roteiro, direção e pós-produção. Ali não há dúvida sobre personagens, nem confusão sobre enredo. Cada um sabe seu papel, seu tempo de entrada e, sobretudo, o momento exato de fingir que não viu nada.

Comparado a isso, O Agente Secreto parece menos um filme e mais um ensaio mal resolvido sobre como não contar uma história.

E a conclusão é simples, ainda que indigesta: saí do jogo contra a França querendo esquecer o futebol e terminei o filme querendo esquecer o cinema. E, entre um e outro, ficou a sensação de que, em matéria de roteiro, a vida real continua escrevendo melhor. E com muito mais coerência.

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