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segunda-feira, março 30, 2026

Bistrô, um patrimônio francês

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Bistrô, ou bistrot em francês, é um pequeno bar-restaurante, um lugar simples, com mesas de madeira e um balcão de zinco. Nos bistrôs, pode-se comer um sanduíche, um prato do dia, tomar um café ou um chope a qualquer momento. Eles são espaços populares e culturais. Trata-se de um patrimônio cultural imaterial francês que agora busca ser reconhecido como patrimônio mundial pela UNESCO.

A iniciativa é da Associação de Bistrôs e Cafés da França, dirigida por Alain Fontaine. A associação defende essa ideia porque esses estabelecimentos são lugares de sociabilidade e de práticas sociais, verdadeiros espaços de convivência que precisam ser preservados.

O dossiê, que conta com o apoio do presidente francês, foi apresentado este ano pela associação, que espera obter uma resposta dentro de dois anos. Enquanto isso, ela continua trabalhando para que a candidatura seja aceita.

Os bistrôs precisam ser preservados porque estão em risco de desaparecer. Eram cerca de 200.000 em 1960 e apenas 40.000 em 2023, dos quais 1.400 em Paris. Eles enfrentam a concorrência do fast-food (cadeias internacionais, sanduicherias, kebabs, pizzarias para viagem e padarias com oferta de refeições rápidas), que representam cerca de 40 a 45% dos estabelecimentos. O restante, cerca de 55 a 60%, corresponde à restauração tradicional (restaurantes clássicos, bistrôs e brasseries).

No país da gastronomia e da art de vivre, é preocupante observar o aumento do número de fast-food e do consumo nesses estabelecimentos. Além disso, há a concorrência de restaurantes chineses, japoneses e de muitas outras origens. O fast-food, em geral, não oferece a qualidade que uma alimentação equilibrada deve ter. Médicos e especialistas associam o consumo de alimentos ultraprocessados, gordurosos e ricos em açúcar ao desenvolvimento de diversas doenças, entre elas o câncer.

Por outro lado, os bistrôs oferecem uma comida simples e tradicional, com pratos do dia saudáveis. Mais do que alimentação de qualidade, são espaços de convivência popular. Lugares onde se pode ler o jornal, encontrar amigos, trocar ideias — enfim, socializar, o que ajuda a combater a solidão. Se no passado eram vistos como espaços de consumo excessivo de álcool, hoje oferecem múltiplas possibilidades de convivência, inclusive em torno de bebidas não alcoólicas.

A diminuição do número de bistrôs é ainda mais preocupante no interior da França e nos bairros periféricos das grandes cidades, como alerta a associação. A situação é especialmente crítica nos vilarejos, onde os grandes centros comerciais, instalados a partir dos anos 1960, contribuíram para o desaparecimento desses espaços. Como consequência, muitas pessoas — especialmente idosos com pouca mobilidade — ficaram isoladas, sem locais de encontro.

Trata-se de uma questão social, de saúde, cultural e política de grande relevância.

A proposta é que, com o reconhecimento como patrimônio cultural imaterial pela UNESCO, seja criada uma fundação para apoiar a reabertura desses estabelecimentos em locais onde foram abandonados. Esses espaços poderiam também oferecer serviços essenciais, como correio, banco e comércio de produtos básicos. O bistrô voltaria a ser um lugar de convivência, encontros e atividades culturais, como apresentações musicais, oferecendo uma cozinha caseira com pratos típicos, onde turistas e moradores locais possam se encontrar.

Alain Fontaine lembra que os bistrôs estão no centro da história francesa: Jean Jaurès foi assassinado em um café bistrô e inúmeros filmes foram ambientados em bistrôs, especialmente durante a Nouvelle Vague.

Em tempos de inteligência artificial, precisamos do real, da tradição cultural dos bistrôs. Medidas de preservação são necessárias. A art de vivre à la française precisa continuar viva. Quando um café-bistrô desaparece, é a alma do vilarejo que se perde.

Alain Fontaine se mostra otimista e trabalha pela inscrição desse patrimônio imaterial junto à UNESCO. Ele é proprietário do restaurante Le Mesturet (rue de Richelieu, 77), um bistrô criado no século XVIII, que dirige desde o início dos anos 2000. Foi lá que recebeu um grupo de jornalistas para discutir o tema, em um bairro histórico e central de Paris, próximo a importantes instituições como a Biblioteca Nacional, a Agência France-Presse e o Palais Royal.

O Le Mesturet possui uma decoração que merece ser vista e é ideal para quem deseja conhecer a alma francesa. O menu inclui foie gras caseiro, além do popular prato do dia acompanhado por uma bebida por 16 €. Uma cozinha saborosa, feita em casa, a preços razoáveis, com atendimento acolhedor e um ambiente Art Nouveau.

  • Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
    Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
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