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terça-feira, março 31, 2026

O martírio dos Gomide no Uruguai

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Daniel Afonso da Silva [1]

A tensão entre os tupamaros e a presidência de Jorge Pacheco Arce chegou ao extremo quando os guerrilheiros assassinaram Daniel Mitrione, enviado norte-americano em Montevidéu. O mundo inteiro moveu a sua atenção para a América do Sul e para o Uruguai. Um diplomata brasileiro também tinha sido sequestrado. Todos temiam por sua sorte.

Maria Aparecida Gomide, sua mulher, já não tinha mais lágrimas para chorar. E, por isso, foi à imprensa uruguaia fazer apelo aos tupamaros para libertarem o seu marido. Mesmo que, para isso, fosse necessário que ela própria negociasse o resgate visto que a presidência uruguaia era irredutível.

Foi um gesto de amor mais que de desespero.

Dois dias depois, ela foi procurada por um advogado – amigo de Raúl Sendic, líder dos dos tupamaros – disposto e qualificado a ajudar.

Maria Aparecida Gomide aceitou a colaboração.

Que rendeu frutos imediatos.

No mesmo dia, esse advogado retornou com a informação de que o MNL-T exigia um milhão de dólares para o resgate. Era – e continua sendo – muito dinheiro. Mas Maria Aparecida Gomide não esmoreceu. Reportou a situação ao ministro Mário Gibson Barboza, chanceler brasileiro, que noticiou ao presidente Médici. Que, em seguida, juntamente com a sua mulher, dona Scylla Nogueira Médici, recebeu Maria Aparecida Gomide.

A amabilidade do encontro foi imensa. Mas os seus efeitos práticos, quase negativos.

O presidente Médici recusou-se a engajar o Brasil no fornecimento do montante requerido. Em seu entender, seria uma ingerência sobre o Uruguai e poderia desembocar em consequências importantes e duradouras para as relações entre os países assim como para o equilíbrio da América do Sul.

Maria Aparecida Gomide entendeu, despediu-se e partiu.

Após meses de meditação, ela voltou, foi conversar novamente com o ministro Barboza e apresentou a hipótese de arrecadação mediante uma campanha popular. O ministro considerou boa a ideia e solicitou a anuência do presidente. O presidente anuiu. E, assim, no dia 13 de dezembro de 1970, ocorreu o lançamento da campanha na TV Tupi, quando Maria Aparecida Gomide concedeu uma entrevista ao showman Flávio Cavalcanti.

Flávio Cavalcanti dispunha do programa líder de audiência da televisão brasileira. O seu apoio na campanha foi decisivo. Como slogan, ele criou a chamada Maria Aparecia Gomide – Só o amor constrói. Que foi um sucesso de público e de doações.

Dias depois, Maria Aparecida Gomide ainda participaria do programa de José Abelardo Barbosa, Chacrinha. Ampliado a exposição da situação e angariando mais adeptos de sua causa.

Como resultado, doadores advieram de todas as partes do país. Os funcionários da cervejaria Ouro Preto, em Belo Horizonte, fizeram a doação de um dia de seus salários. O jóquei clube de Santos doou a integralidade da renda de uma corrida. Um circo no Rio de Janeiro aportou todo o lucro de um fim de semana de espetáculos. Sem contar a participação massiva de várias personalidades de praticamente todos os segmentos da sociedade. Como Danuza Leão que emprestou o seu prestígio e o cardeal dom Agnelo Rossi que doou o seu anel episcopal.

A arrecadação foi importante. Mas não chegou ao montante requerido. Buscando solução, Maria Aparecida Gomide conseguiu ser recebida pelo presidente Juscelino Kubitschek juntamente com dona Sara. Nesse encontro, o presidente sugeriu que Maria Aparecida Gomide apresentasse a situação aos tupamaros e acentuasse que, malgrado os visíveis esforços, a arrecadação não ultrapassara um quarto do um milhão de dólares requerido. Maria Aparecida Gomide o fez. E os tupamaros decidiram aceitar aquela fração. Dando início a outra fase do processo: a entrega do dinheiro e a libertação de Aloysio Gomide.

As doações estavam dispostas em vários estabelecimentos financeiros espalhados por todos os estados do Brasil. Seria imperativo tudo reunir. Para tanto, Maria Aparecida Gomide apelou para o professor Théophilo de Azevedo Santos, presidente da Federação Nacional de Bancos, que conseguiu trazer todo o recurso para uma única conta no Banco Português no Rio de Janeiro.

Outro imbróglio dizia respeito à conversão dos cruzeiros em dólares. O ministro Antônio Delfim Netto foi acionado para deliberar e vedou terminantemente a operação.

Restou a Maria Aparecida Gomide sondar se os tupamaros receberiam o dinheiro em moeda brasileira. Eles aceitaram.

Surgia agora a necessidade de organização da logística para o dinheiro chegar no Uruguai.

Os tupamaros fixaram a entrega num ponto na cidade de Rivera. O ministro Antônio Delfim Netto voltou a alertar sobre o problema de atravessar-se aquelas divisas além fronteiras. O ministro Barboza, em contato com o presidente Médici, indicou que a polícia brasileira faria, então, “vistas grossas”. Ficando, assim, pendente apenas o portador.

O mundo inteiro conhecia a feição de Maria Aparecida Gomide. Seria, para ela, arriscado servir de portador. Foi quando Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo voluntariaram-se.

Inácia Almeida era uma amiga da família Gomide, muito corajosa e habituada a ir com frequência a Rivera. Marcos Ribeirão de Azevedo era um advogado, sensibilizado com a situação.

No dia 30 de janeiro de 1971, Maria Aparecida Gomide embarcou do Rio de Janeiro com destino a Montevidéu. Foi com muitas bolsas e malas, simulando estar levando o dinheiro. Entretanto, no dia anterior, por terra e portando de fato o dinheiro, Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo seguiram de ônibus do Rio de Janeiro para Porto Alegre e de Porto Alegre foram de carro até Rivera.

O combinado era entregarem o dinheiro aos tupamaros às 6h30, num logradouro preciso da cidade uruguaia. Maria Aparecida Gomide seguia aflita em Montevidéu. O ministro Barboza acompanhava tudo desde Brasília. O conselheiro Quintino Symphoroso Deseta foi designado para acolher Maria Aparecida Gomide em sua casa, à avenida engenheiro Luis P. Ponce, 1.296, em Montevidéu. Maria Aparecida Gomide, Mário Gibson Barboza e Quintino Symphoroso Deseta viviam minutos e segundos de aflição. As horas foram passando e nenhuma novidade advinha de Rivera. Inácia Almeida e Marcos Ribeirão de Azevedo ficaram o dia inteiro, das 6h às 18h, na cidade uruguaia e ninguém apareceu para cumprir o acordo. Voltaram, então, para Porto Alegre. Alojados no hotel, receberam uma ligação do Rio de Janeiro informando que o trato tinha mudado e que a entrega ocorreria no dia 3 de fevereiro na cidade brasileira de Chuí.

No dia e lugar marcados, foram até lá e conseguiram, enfim, entregar o montante. A senha da entrega era: “Nossa Senhora Aparecida nos proteja”. Com o complemento: “Estejamos protegidos”.

Chegou um desconhecido, apresentou a senha, ouviu a resposta e levou a sacola com milhões de cruzeiros brasileiros.

Os tupamaros haviam mudado realmente os planos. Queriam receber o dinheiro em Montevidéu. Por conta disso, o diplomata Deseta, por conta e risco próprios, serviu de portador. Tomou seu carro, atravessou a fronteira e veio ao Brasil apanhar a encomenda.

De volta, são e salvo, a Montevidéu, ele entregou o dinheiro ao advogado uruguaio que fazia contato com os tupamaros e no dia seguinte a operação foi concluída: o dinheiro chegou aos tupamaros e eles divulgaram um novo comunicado. Dessa vez, o Comunicado n. 16. Informando que o pagamento tinha sido concluído e que Aloysio Gomide estava perto de ser libertado, restando apenas a presidência de Jorge Pacheco Arce revogar o estado de sítio em vigor no Uruguai.

Em claro, um balde de água fria em todos. Maria Aparecida Gomide não sabia mais o que fazer. Ela não tinha mais lágrimas para chorar e, havia muito, nenhum motivo para sorrir. Era notória a irredutibilidade da presidência uruguaia. Fazendo aquele condicionamento, o MNL-T promovia uma verdadeira regressão das expectativas do processo de libertação do diplomata brasileiro.

Diante disso, presidências e chancelarias do mundo inteiro pressionaram fortemente a presidência do Uruguai e o estado de sítio foi revogado no dia 22 de fevereiro de 1971.

Nesse mesmo dia, às voltas das 22h30, o telefone tocou à casa do

número 1.296 da avenida engenheiro Luis P. Ponce em Montevidéu. Maria Aparecida Gomide atendeu. Do outro lado um tupamaro informou onde tinha sido libertado Aloysio Gomide. Era o fim do martírio.[2]


[1] Pesquisador do Núcleo de Pesquisas Internacionais da USP e articulista do Jornal da USP.

[2] Uma versão ampliada desse assunto saiu em “Sequestros, angústia e funerais”, Jornal da USP, 30/03/2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/daniel-afonso-da-silva/sequestros-angustia-e-funerais/

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