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quarta-feira, abril 1, 2026

O retorno do Morenão. E o futebol de MS, volta também?

A reforma do Morenão pode devolver o palco, mas o futebol sul-mato-grossense ainda precisa reescrever seu enredo

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Valfrido Silva

O Morenão está voltando — ao menos é o que indicam os termos assinados, os discursos alinhados e os R$ 16,7 milhões anunciados para tirar o estádio do estado de suspensão em que foi deixado nos últimos anos. Após quase uma década de impasse e um período recente de abandono explícito, o maior estádio universitário da América Latina ensaia seu retorno. Mas, para além do concreto, a questão que se impõe é menos objetiva e muito mais incômoda: o futebol sul-mato-grossense será capaz de voltar junto com ele?

Porque o Morenão nunca foi apenas um estádio; foi, desde a origem, uma promessa. Erguido quando Mato Grosso ainda era um só, sob a visão grandiosa de Pedro Pedrossian — daqueles políticos que apostavam na escala e na simbologia das obras — o estádio nasceu como monumento de ambição. Um colosso cravado no cerrado, expressão concreta de um desejo coletivo de pertencimento a um cenário esportivo nacional que, historicamente, sempre olhou mais para os grandes centros e litoral do que para o interior.

E, por um tempo, esse sonho encontrou eco. O Morenão viu Pelé pisar em seu gramado em 1973 — ainda que o Santos tenha saído derrotado por um improvável 1 a 0 para o Comercial — e viveu tardes em que as arquibancadas cheias davam a impressão de que o futebol sul-mato-grossense poderia, enfim, ocupar um espaço mais relevante no mapa do país. Havia ali não apenas jogos, mas uma tentativa constante de afirmação. Tempos em que o O Operário de Campo Grande chegou às quartas de final do campeonato brasileiro de então.

Com o passar dos anos, porém, a promessa perdeu força. O Morenão envelheceu sem o cuidado necessário e, pouco a pouco, deixou de ser palco para se tornar símbolo — e não dos melhores. Fechado desde 2022, sem laudos desde 2023 e submetido a um impasse administrativo da UFMS que atravessou diferentes gestões, o estádio transformou-se em uma espécie de ruína funcional: não chegou a colapsar, mas tampouco manteve qualquer vitalidade.

É nesse contexto que surge o atual movimento de reativação. A cessão da gestão da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para o Governo do Estado encerra, ao menos formalmente, um impasse prolongado e abre caminho para intervenções que prometem devolver condições mínimas de uso ao espaço. Como de praxe, o anúncio vem acompanhado de números, cronogramas e da expectativa de que, entre 2026 e 2027, o Morenão volte a receber os jogos do estadual.

Junto com as obras, reaparecem também os discursos. Fala-se novamente em redenção do futebol sul-mato-grossense, em retomada de protagonismo, em oportunidades que agora, finalmente, estariam ao alcance. A narrativa é conhecida, assim como a esperança que ela mobiliza.

O problema é que o Morenão já foi colocado nesse papel antes.

A crença de que a revitalização física de um estádio pode, por si só, reestruturar o futebol de uma região é sedutora, mas simplificadora. Ao concentrar a solução no concreto, corre-se o risco de ignorar aquilo que, de fato, compromete o desenvolvimento do esporte: a fragilidade dos calendários, a instabilidade dos clubes, a ausência de políticas contínuas de formação e, sobretudo, os vícios de gestão que atravessam o futebol brasileiro de ponta a ponta.

Nesse sentido, o Morenão acaba se transformando em metáfora. O problema não está nas arquibancadas deterioradas, mas nos ambientes onde o futebol é administrado. A crise que atinge o esporte no país não se explica pela falta de estádios, mas por uma estrutura marcada por escândalos recorrentes, concentração de poder e baixa transparência — características que, há anos, acompanham a atuação da CBF e de parte significativa das federações estaduais.

O Mato Grosso do Sul, evidentemente, não está à margem desse processo. A trajetória recente da Federação de Futebol do Estado, incluindo o episódio envolvendo Francisco Cesário, com pretensões eternas no futebol estadual, evidencia como práticas questionáveis se enraizaram também no plano local. Não se trata de um desvio isolado, mas de um padrão que ajuda a explicar por que o futebol regional, apesar da paixão que mobiliza, permanece estruturalmente frágil.

Enquanto isso, os clubes seguem em uma espécie de resistência permanente. Com poucos recursos, calendários limitados e dificuldades para se consolidar, sobrevivem mais pela persistência do que por um ambiente institucional favorável. Revelam jogadores que rapidamente deixam o Estado e mantêm viva uma tradição que, embora enfraquecida, ainda encontra eco nas arquibancadas e na memória coletiva.

É nesse cenário que se insere a promessa de retomada. A possibilidade de atrair investimentos privados, de adotar modelos como as SAFs e de explorar o potencial do entorno universitário do Morenão aponta, sem dúvida, para caminhos possíveis. Mas nenhuma dessas alternativas será suficiente se não vier acompanhada de mudanças mais profundas na forma como o futebol é organizado e gerido.

A modernização do estádio pode devolver dignidade ao espaço físico. Pode criar condições para receber público, eventos e, eventualmente, novos projetos. O que ela não garante, por si só, é a transformação do futebol que ali será praticado.

O risco, portanto, permanece evidente. O Morenão pode ser reformado, reinaugurado com cerimônia, discursos e expectativas renovadas, apenas para, algum tempo depois, ver repetir-se o ciclo de abandono — não necessariamente do espaço, mas do projeto esportivo que deveria sustentá-lo. O país tem longa experiência em inaugurações bem-sucedidas e continuidades frustradas.

Ainda assim, há um elemento que resiste e que talvez explique por que o tema mobiliza tanto. O Morenão, mesmo degradado, nunca deixou de existir como referência. Permaneceu como símbolo de um tempo em que o futebol local parecia mais próximo de se afirmar e como lembrete de que esse potencial, embora comprometido, não desapareceu completamente.

Se a reabertura do estádio será capaz de marcar um novo ciclo ou apenas reativar uma expectativa antiga, ainda é cedo para afirmar. O que se sabe é que, quando as luzes voltarem a se acender naquele espaço, estará em jogo mais do que a utilização de uma arena: estará em teste a capacidade de o futebol sul-mato-grossense superar suas próprias limitações.

E, como tantas vezes já ocorreu, a esperança provavelmente voltará a ocupar o centro do campo — não como garantia de mudança, mas como condição necessária para que ela, ao menos, continue sendo possível.

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