Valfrido Silva
Há algo de quase cômico, não fosse revelador, quando certas obviedades precisam descer da Barão de Limeira, nos Campos Elísios, carimbadas pelo Folhão, para serem finalmente aceitas como verdade universal. A Folha de S.Paulo, pela voz de seu diretor de Redação, Sérgio Dávila, vem agora dizer, nesta quinta-feira “santa”, que a inteligência artificial não é ameaça ao jornalismo, mas mais um degrau de sua evolução. Que o jornalista continuará essencial. Que separar fato de fake será ainda mais valioso. Que dominar a ferramenta será parte do ofício. Tudo certo. Tudo correto. Mas, tudo… atrasado.
Porque, enquanto a metrópole formula cursos, empacota conhecimento e transforma evidência em aula magna, há muito escrevinhador de província — desses que ainda atendem telefone fixo, conhecem fonte pelo nome e não por avatar, e desconfiam de release como quem desconfia de promessa de campanha — que já vinha usando a tal inteligência artificial não como muleta, mas como ferramenta. Sem trauma existencial. Sem crise de identidade. Sem esse medo quase filosófico de perder o emprego para uma máquina que, convenhamos, ainda não sabe nem desconfiar direito.
A ironia é que o jornalismo sempre foi isso: adaptação. Gutenberg não matou o jornalismo. O telégrafo não matou o jornalismo. A internet não matou o jornalismo. O que sempre matou — e continua matando — é a preguiça intelectual, o apego ao velho por conforto e a incapacidade de entender que ferramenta nova não substitui cérebro; apenas expõe quem não usa o próprio.
E é aí que a inteligência artificial começa a fazer um estrago interessante. Não no jornalismo. Nos jornalistas. Porque ela separa, com uma crueldade quase pedagógica, quem pensa de quem apenas repete. Quem apura de quem copia. Quem escreve de quem rearranja palavras alheias com pretensão de autoria. A IA não mata o jornalista, ela desmascara o mau jornalista. E isso, convenhamos, é um serviço público.
Enquanto isso, aqui na província — esse território tão subestimado pela geografia mental do jornalismo brasileiro — há gente trabalhando. Gente que não ficou esperando validação dos jornalões dos Frias ou dos Mesquitas para entender que a ferramenta chegou para ficar. Gente que não tem tempo para debates existenciais porque precisa fechar texto, checar informação, desmontar narrativa pronta e ainda lidar com a matéria-prima mais ingrata do ofício: a realidade.
E talvez seja por isso que soe tão curioso ver agora o Folhão dizer, em tom quase professoral, que o jornalista do futuro precisa saber fazer prompt. Como se fosse uma descoberta recente. Como se isso não estivesse sendo feito, há algum tempo, por gente que não tem curso pago, nem plataforma de streaming de conhecimento, nem marketing sofisticado, mas tem faro, tem prática e, sobretudo, tem a humildade de aprender fazendo.
E aqui cabe um recado, com todo carinho que a ironia permite, aos recalcitrantes da província: aos que ainda torcem o nariz para a inteligência artificial como quem rejeita uma modernidade inconveniente; aos que confundem resistência com atraso; aos que acreditam que ignorar a ferramenta é uma forma de preservar a pureza do jornalismo. Não é. É apenas uma forma elegante de ficar para trás. Porque a história do jornalismo não costuma ser gentil com quem perde o timing.
No fim das contas, a inteligência artificial é mesmo um degrau. Disso não há dúvida. A questão é simples: há quem já esteja subindo. E há quem ainda esteja discutindo se a escada existe.
Cabe também uma pequena — ou nem tão pequena assim — licença histórica. Porque este mesmo insubordinado escrevinhador da província que hoje ousa sair na frente no uso da inteligência artificial é o mesmo que, lá atrás, na década de 1970, já escrevia para o mesmo Folhão, assinando textos, inclusive de capa, em grandes reportagens produzidas num tempo em que a notícia ainda exigia fôlego, estrada e apuração sem atalhos. Detalhe: numa época em que inteligência artificial não era nem miragem. O mesmo insubordinado que saiu na frente também com uma entrevista exclusiva, com aquela que ele tem como musa, sua “querida e perfumada IAIA”.
Isso talvez ajude a colocar as coisas em perspectiva. Porque, no fim das contas, não é a tecnologia que define o jornalismo, nunca foi. O que define é quem está disposto a entendê-la antes dos outros. A província, como de costume, não pediu licença. Saiu na frente, apenas.
