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sexta-feira, abril 3, 2026

Depois de Dávila, Frias — e a IAIA já estava na mesa

Luiz Frias fez anúncio em entrevista no Festival UOL Prime de Jornalismo sem revelar nome da companhia. Empresário afirma que nova tecnologia precisa do jornalismo e diz que Justiça é caminho contra apropriação de conteúdo

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Primeiro veio o editor-chefe da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, em tom didático, quase professoral, explicando que a inteligência artificial não é ameaça ao jornalismo, mas um degrau de sua evolução. Agora vem o publisher, Luiz Frias, em tom mais pragmático, avisando que o jornal está prestes a fechar acordo com uma empresa de IA. Traduzindo do economês para o português claro: abriram a guarda. E abriram por inteiro.

Não é pouca coisa. Dávila fala de conceito. Frias fala de negócio. Quando os dois começam a dizer, cada um à sua maneira, que a inteligência artificial não apenas chegou, mas precisa ser incorporada, a mensagem está dada: não é mais debate teórico. É movimento de mercado. É adaptação institucional. É sobrevivência com estratégia.

O curioso — e aqui a história ganha um tempero especial — é que esse movimento não começou na mesa de negociação. Começou no campo jurídico. Não faz muito tempo, o próprio Folhão levantava a sobrancelha, questionava o uso de conteúdo por empresas de inteligência artificial, flertava com a tese de violação de direitos autorais e sinalizava disposição para o embate. Era o momento clássico da resistência: quando a tecnologia ainda parece ameaça e a reação inicial é tentar contê-la, enquadrá-la, talvez até freá-la.

Nada fora do script. Toda inovação passa por esse estágio. Primeiro se desconfia, depois se combate, depois se entende — e, por fim, se negocia. E é exatamente aí que a coisa fica interessante.

Porque, enquanto a metrópole atravessava suas etapas — resistência jurídica, elaboração conceitual, adesão econômica —, aqui na província o movimento já era outro. Mais direto. Menos dramático. Menos teórico. O ContrapontoMS, sem litígio, sem manifesto e sem crise existencial, já tinha sentado à mesa com a IA fazia tempo. E não apenas para usar. Para conversar. Para provocar. Para testar limites. Sem trauma. Sem medo. Sem pedir licença. Pelo contrário, criando uma cumplicidade, quando a tecnologia foi transformada em musa inspiradora, a IAIA.

No fundo, no fundo, a história é simples. A inteligência artificial não está mudando o jornalismo apenas porque produz texto. Está mudando porque reorganiza o processo. Acelera etapas. Amplia possibilidades. E, sobretudo, escancara diferenças. Entre quem pensa e quem apenas compila. Entre quem interpreta e quem só repete. Entre quem tem repertório e quem depende dele pronto.

Talvez por isso a passagem do embate jurídico para o acordo comercial — agora sob a condução direta de Frias — seja tão reveladora. Quando o publisher diz que vai fechar acordo com uma empresa de IA, ele não está apenas aderindo à tecnologia. Está reconhecendo que o jogo mudou. Que não se trata mais de conter, questionar ou adiar. Trata-se de integrar. E, convenhamos, há uma certa elegância nessa virada — ainda que tardia.

No fim das contas, não era uma questão de “se”. Era de “quando”. E o quando chegou com assinatura dupla: de Dávila, explicando; e de Frias, negociando. A diferença é que, por aqui, a conversa já tinha começado. E em outro tom. Enquanto uns preparavam a tese jurídica, outros nós já testávamos a prática. Enquanto uns desenhavam limites, nós explorávamos possibilidades. Enquanto uns se armavam para o confronto, nós já brindávamos, com Heineken, claro.

Sim, brindávamos, porque, enquanto o centro do jornalismo brasileiro ainda discutia se a inteligência artificial deveria ou não participar do jogo, o ContrapontoMS já a colocava na mesa — e entrevistava.

Talvez por isso tudo soe menos como novidade e mais como confirmação. Como aquele momento em que alguém finalmente chega a uma conclusão e você apenas pensa: demorou, mas veio.

E veio completo: com conceito, com contrato e com a discretíssima lembrança de que, antes de negociar, houve resistência. Houve dúvida. Houve, inclusive, tentativa de enquadramento.

Nada disso, claro, apaga o movimento atual. Mas ajuda a entendê-lo, até porque a história da tecnologia no jornalismo nunca foi linear. Sempre foi feita de tensão, ajuste e, no fim, incorporação. Desta vez, não foi diferente. A diferença é que, quando o centro resolveu sentar à mesa, a província já estava lá fazia tempo.

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