Um dia depois do presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar um cessar-fogo no Golfo Pérsico, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, usou seu habitual tom maximalista para declarar que o Irã “implorou pela trégua”, e que o país foi derrotado no campo de batalha. Hegseth repetiu as alegações de que as Forças Armadas iranianas foram “dizimadas” e de que houve uma “mudança de regime” em Teerã, ignorando que as autoridades no poder seguem fiéis à República Islâmica.
— A Operação Fúria Épica foi uma vitória histórica e esmagadora no campo de batalha — disse Hegseth, em entrevista coletiva no Pentágono. — Sem dúvida alguma, ela dizimou as forças armadas do Irã e as tornou ineficazes em combate por muitos anos.
Hegseth, um ex-apresentador da rede Fox News, afirmou que o programa de mísseis iraniano foi “funcionalmente destruído”, que a Marinha “está no fundo do mar” e que os Estados Unidos estão no controle dos céus iranianos. Contudo, países árabes e Israel afirmaram que os lançamentos de mísseis continuaram mesmo depois do cessar-fogo — segundo analistas, resultado do modelo descentralizado de comando, que dificulta o contato com algumas unidades — e o Estreito de Ormuz segue sob controle iraniano.
— Eles ainda conseguem atirar, nós sabemos disso — acrescentou Hegseth. — O comando e controle deles estão tão comprometidos que eles não conseguem se comunicar e se coordenar direito, então ainda podem atirar aqui e ali, mas isso seria muito, muito imprudente.
Ele disse acreditar que o Estreito de Ormuz está aberto, e que “nossos militares estão observando, com certeza, os militares deles também, mas o comércio vai fluir”. Dados de satélite indicam que algumas embarcações fizeram a travessia, mas representantes do governo iraniano dizem que a abertura mais ampla acontecerá a partir de sexta-feira, data da primeira reunião entre Irã e EUA.
Antes do anúncio da pausa nos combates, os EUA realizaram cerca de 800 ataques contra o território iraniano, completou Hegseth. Segundo o secretário, suas forças estavam prontas para destruir “centrais elétricas, as pontes e as infraestruturas de petróleo e energia que eles não conseguiram defender e que não teriam condições realistas de reconstruir” por décadas. Ataques contra alvos civis podem ser considerados crimes de guerra.
— Tínhamos um alvo definido, pronto para ser atingido — disse Hegseth, acrescentando que, em sua visão, todos os objetivos da guerra foram atingidos, sem dizer exatamente quais eram.
Ao lado de Hegseth, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Dan Caine, disse que 13 mil alvos foram atingidos desde o dia 28 de fevereiro, destruindo 80% dos sistemas de defesa aérea do Irã, 800 instalações de armazenamento de drones, 450 locais de armazenamento de mísseis e 150 navios. Ele afirmou que suas tropas agiram de maneira profissional, sem mencionar que, 24 horas antes, Trump fez ameaças existenciais ao Irã, consideradas por analistas crimes de guerra.
Na noite de terça-feira, depois do anúncio de um acordo preliminar para suspender as hostilidades por duas semanas (que também envolve Israel), os dois lados declararam vitória. Pelo lado iraniano, a confirmação feita por Trump de que seu plano de 10 pontos iria guiar as negociações foi uma conquista após semanas de bombardeios — a proposta prevê o fim das sanções, a manutenção do direito ao enriquecimento de urânio e algum tipo de controle sobre Ormuz. Veículos de imprensa locais estamparam suas capas com frases sobre a capitulação dos EUA. Um deles, o conservador Farhikhtegan, disse em sua manchete que “O jogador perdeu”.
Para a Casa Branca, foi uma “uma vitória para os Estados Unidos, conquistada pelo Presidente Trump e pelas nossas incríveis Forças Armadas”, disse a Secretária de Imprensa Karoline Leavitt em comunicado. No texto, ela afirma que “Trump estimou que seria uma operação de 4 a 6 semanas”, e que “graças às capacidades extraordinárias dos nossos guerreiros, alcançamos e superamos os nossos principais objetivos militares em 38 dias”.
Em publicação na rede Truth Social, na manhã desta quarta-feira, o presidente declarou que trabalhará “em estreita colaboração com o Irã”, citando sua versão questionável de que houve uma mudança de regime, prometendo discutir “o alívio de tarifas e sanções” e declarando que não haverá enriquecimento de urânio no país, uma das demandas do plano iraniano. Na postagem, o republicano disse que poderá trabalhar com Teerã para “desenterrar” o material enriquecido em instalações nuclares atingidas por bombardeios. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, há cerca de 440kg de urânio enriquecido no país.
— De acordo com os termos, qualquer material nuclear que eles não deveriam ter será removido — disse Hegseth. — O presidente foi claro desde o início: não haverá armas nucleares iranianas. Ponto final. Outros presidentes disseram isso. O presidente Trump cumpriu a promessa.
Na entrevista coletiva, o tom de Hegseth destoou da imagem de “presidente da paz” (termo usado por ele diante dos jornalistas), que Trump tentou evocar em suas publicações mais recentes. Ele disse que Irã “implorou pela trégua”, apontou que boa parte da liderança foi morta pelas bombas e que o novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, “está desfigurado”. Apesar das baixas nos altos escalões, há nomes leais às ideias da República Islâmica nos principais postos de comando.
— O novo regime iraniano entendeu que um acordo era muito melhor do que o destino que os aguardava — disse Hegseth.
Caine, por sua vez, deixou claro que o Pentágono vê o acordo como uma pausa temporária, não como o fim da guerra.
— Sejamos claros. Um cessar-fogo é uma pausa, e a força conjunta permanece pronta para retomar as operações de combate com a mesma rapidez e precisão que demonstramos nos últimos 38 dias, caso seja ordenada ou convocada. E esperamos que isso não aconteça.
Filipe Barini/O Globo
