O repórter fotográfico da Folha de S.Paulo, Eduardo Anizelli, 43, foi premiado nesta quinta-feira (9) pelo World Press Photo, a mais importante premiação de fotojornalismo do mundo. O jornalista venceu a categoria História, pela regional América do Sul –o concurso é dividido por regiões do mundo.
O trabalho vencedor retrata a cobertura fotográfica da Operação Contenção, a ação policial mais letal da história do Brasil, que deixou 122 mortos no Rio de Janeiro em outubro de 2025. O fotógrafo disse acreditar que o prêmio ajuda a não deixar o fato cair no esquecimento e mantém vivo o debate acerca da violência policial. “Não cabe à polícia decidir quem vive ou morre”, diz Anizelli.
Pautado para cobrir uma operação policial –que parecia ser de rotina– na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio, Anizelli encontrou um cenário de guerra: barricadas, carros carbonizados e veículos blindados tomando a entrada do complexo de favelas da Penha.

Soldados armados tentavam chegar ao alto do morro, onde ainda ocorriam confrontos entre policiais e traficantes. Tiros continuavam sendo ouvidos quando, numa procissão funesta, grupos de suspeitos começaram a descer o morro algemados ou atados por abraçadeiras plásticas, escoltados por policiais das forças táticas. Pouco tempo depois, Anizelli registrava a chegada de corpos ao hospital Getúlio Vargas, transportados em carrocerias de caminhonetes da polícia.
Ao todo, 64 mortes seriam confirmadas no fim daquele dia. Contudo, relatos de moradores davam conta de que o número de vítimas era maior. Os corpos estariam na Vacaria, uma região de mata no alto do morro. A reportagem tentou chegar ao local ainda na tarde do dia 28. “Tentamos subir até a mata, mas a polícia nos impediu, dando tiros para cima”, conta Anizelli.
“Isso ficou na minha cabeça. Foi o que me fez sair de madrugada no dia seguinte”, diz o fotógrafo, que foi um dos primeiros a chegar à Vacaria na manhã do dia 29. “Quando cheguei, ouvi os gritos de dor de uma mulher grávida que procurava por seu companheiro. Isso me deixou bastante tocado. Mais tarde ela o encontraria morto no chão”, conta.
O fotógrafo registrou o desespero dos familiares procurando e retirando corpos de dentro da mata. Em seguida, acompanhou as vítimas sendo levadas e enfileiradas na praça São Lucas, no Complexo da Penha. Utilizou um drone para fotografar as dezenas de corpos estirados no chão. “Eu precisava mostrar a dimensão da tragédia”, diz o fotógrafo.

Anizelli, que fotografou por mais de um ano o cotidiano policial das madrugadas da Grande São Paulo e cobriu tragédias como a de Brumadinho, conta que foi a cobertura mais difícil que já fez em seus 18 anos no jornal. “Foi a primeira vez que precisei parar para respirar, esperar passar a crise de choro, antes de editar as fotos e enviá-las para a Redação”, diz.
Os finalistas da categoria Foto do Ano serão anunciados no próximo dia 23. A cerimônia de premiação do World Press Photo está marcada para ocorrer entre os dias 28 e 31 de maio, em Amsterdã, na Holanda. Na sequência, os trabalhos vencedores nas quatro categorias —Longa Duração, Grande Foto, História e Formato Aberto— deverão ser expostos em vários países.
De acordo com a organização, os trabalhos premiados mostram desde conflitos e convulsões políticas até a crise climática. Criada em 1955, a fundação World Press Photo, com sede em Amsterdã, organiza o maior prêmio dedicado ao fotojornalismo no mundo. Em 2026 foram 42 vencedores selecionados por um júri independente entre 57.376 fotografias enviadas por 3.747 fotógrafos de 141 países.
Além de Anizelli, outros fotógrafos da Folha já foram laureados com o World Press Photo. Gabriela Biló recebeu menção honrosa no World Press em 2024 com imagens da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Lalo de Almeida foi vencedor em 2024, 2022 e 2021 com trabalhos voltados ao meio ambiente na Amazônia e no Pantanal. Em 2017, ele foi premiado por seu ensaio sobre o surto de zika na região Nordeste do Brasil.
