Valfrido Silva
Nunca antes na história recente de Mato Grosso do Sul se viu tamanha disputa narrativa em torno de um recurso público que, na essência, não pertence a ninguém, mas, ao mesmo tempo, passou a ser reivindicado por muitos como se fosse patrimônio pessoal. Às vésperas de mais um ciclo eleitoral, o anúncio de um investimento da ordem de R$ 1 bilhão em infraestrutura rodoviária no Estado ganhou contornos que vão muito além da engenharia e da logística. Entrou no campo conhecido da política brasileira: quando a obra é boa, a fila de “pais” cresce na mesma velocidade da propaganda.
Mas é preciso colocar as coisas em seus devidos lugares. O chamado “um bilhão do Lula”, como já começa a ser tratado nos bastidores e em discursos mais apressados, na verdade não é um repasse direto, nem um presente, tampouco um ato isolado de vontade política. Trata-se de uma operação de crédito internacional, no valor de 200 milhões de dólares, junto ao Banco Mundial, com aval da União e autorização legislativa concedida ainda em 2024. Ou seja: dinheiro financiado, com regras, metas, fiscalização e, sobretudo, responsabilidade futura.
Nesse contexto, o papel do governo federal — e do presidente Lula — é institucional: atuar como avalista da operação, permitindo que Mato Grosso do Sul acesse esse tipo de financiamento. Não é pouco. Mas também não é, como alguns fazem parecer, um cheque em branco distribuído em palanque. Muito menos a panaceia para todos os males do estado, especificamente da já velha malha viária.
Do outro lado, o governo estadual, sob a liderança de Eduardo Riedel, apresenta o programa Rodar MS como um avanço técnico relevante. E aqui há, de fato, um ponto que merece atenção mais qualificada. O modelo adotado, inspirado em práticas internacionais e baseado em contratos de desempenho — como os formatos CREMA e DBM — rompe com a lógica tradicional da obra pública pontual, avançando para uma abordagem de manutenção contínua, preventiva e com responsabilidade de longo prazo por parte da empresa contratada.
Em tese, é uma mudança importante. Em tese, porque entre o modelo e a execução há sempre o terreno mais sensível da gestão pública brasileira, ainda mais em tempos em que operações da Polícia Federal se tornaram presença quase rotineira no noticiário nacional. Não custa lembrar que, por aqui, o problema raramente está na concepção dos projetos, mas, sobretudo, nas bifurcações — ou nos retornos, ops! — do caminho. Porque, afinal, a carne é fraca e a tentação, às vésperas de uma campanha eleitoral, costuma crescer na mesma proporção do volume anunciado. Quase insuportável, eu diria.
E é justamente nesse ponto que o debate precisa ganhar mais honestidade. Porque, ao contrário do que a narrativa inflada pode sugerir, não se trata de um programa que vai transformar toda a malha rodoviária do Estado em um tapete de asfalto novo. O próprio governo delimita com clareza o foco inicial: cerca de 730 quilômetros de rodovias, concentrados na região do Vale do Ivinhema, abrangendo pouco mais de 20 municípios.
É uma intervenção relevante? Sem dúvida. É estratégica? Também. Mas está longe de ser o retrato de um Estado inteiro beneficiado de forma homogênea, como a retórica política, muitas vezes, tenta vender.
E é aí que entra o cuidado necessário. Porque o modelo é moderno, o volume de recursos é expressivo e a engenharia institucional está bem desenhada. Mas nada disso, por si só, imuniza o projeto contra os velhos vícios da política e da execução pública no país.
A responsabilidade, portanto, é proporcional ao tamanho da expectativa criada, cabendo ao governo estadual garantir que o discurso de inovação se traduza em entrega concreta, sem atalhos e sem desvios. Cabe ao governo federal manter o rigor na função de avalista, zelando pela boa aplicação de um crédito que, afinal, será pago pelo contribuinte. E cabe à sociedade — e, sobretudo, à imprensa — fazer aquilo que mais incomoda em momentos como este: acompanhar, questionar e cobrar. Ou seja, mais fato, menos espalhafato.
É que no Brasil o problema nunca foi anunciar recursos. Sempre foi garantir que eles cheguem exatamente aonde devem e, principalmente, permaneçam no caminho certo até o final. Sem retorno!
