Nesses tempos de debates acalorados nas redes sociais e de uma polarização que divide famílias e amigos, um fenômeno tem se tornado cada vez mais comum: a incapacidade de diálogo entre pessoas de diferentes espectros políticos. Não raro, uma simples menção a temas como liberdade de expressão, cotas raciais ou conflitos geopolíticos no Oriente Médio é suficiente para desencadear uma reação em cadeia de ataques pessoais, xingamentos e, em casos extremos, até vias de fato.
Mas afinal, o que faz com que duas pessoas olhem para o mesmo fato e tirem conclusões tão diametralmente opostas? A resposta, segundo a psicologia social e a filosofia, pode estar em um conceito pouco conhecido do grande público, mas fundamental para entender as trincheiras da guerra cultural contemporânea: o círculo moral.
O berço da divisão: França, 1789
Para entender a cisão atual, é preciso recuar até a Assembleia Nacional Constituinte formada após a Revolução Francesa de 1789. Foi lá que os termos “esquerda” e “direita” ganharam seu sentido político moderno. Os revolucionários que se sentavam à esquerda do presidente da assembleia eram radicais, defensores da ruptura total com o Antigo Regime e da abolição dos privilégios da nobreza. Os que se sentavam à direita eram os conservadores, que desejavam manter a monarquia e a hierarquia social.
Essa metáfora espacial resistiu por mais de dois séculos. De um lado, a esquerda, historicamente associada à transformação social e à igualdade. Do outro, a direita, ligada à ordem, à tradição e à propriedade privada. Os estudos atuais sugerem, no entanto, é que essa diferença não é apenas ideológica, mas ontológica: ela define como o indivíduo percebe o mundo e a quem ele inclui em seu “círculo de consideração moral”.
A régua de Peter Singer: até onde vai sua preocupação?
O renomado filósofo australiano Peter Singer, em seus estudos sobre ética e altruísmo, desenvolveu a teoria do círculo moral (ou expanding circle). A ideia é simples e genial: cada ser humano desenha mentalmente um círculo (ou uma escala) que delimita por quem ele se sente moralmente responsável.
No centro, está o indivíduo (eu). Conforme o círculo se expande, inclui-se a família, os amigos, a vizinhança, a cidade, o país, a humanidade, todos os seres sencientes (animais) e, finalmente, o ecossistema como um todo (vegetais, minerais, e até o espaço sideral).
Observa-se que existe uma correlação política nítida nessa escala. A direita tenderia a parar entre os níveis 4 ou 5. Ou seja, sua preocupação moral efetiva termina nas fronteiras do país ou no núcleo familiar e comunitário. É o que os cientistas políticos chamam de paroquialismo ou nacionalismo profundo. As promessas políticas que mais ressoam nesse grupo são, portanto, a segurança da família, a soberania nacional e a proteção dos costumes locais.
Por outro lado, a esquerda tenderia a estender seu círculo moral até os níveis 13 ou 14, abraçando a humanidade como um todo e até os seres inanimados do planeta (o clima, a água, o espaço). Daí vem o apelo universalista e a promessa de “salvar o planeta”. É o globalismo versus o nacionalismo.
Essa diferença explica porque, para muitos, questões como aquecimento global ou guerras civis distantes são prioridades urgentes, enquanto para outros soam como ameaças abstratas que desviam recursos dos problemas locais, como a violência no próprio bairro ou o desemprego na família.
O outro não é malévolo, apenas enxerga outro círculo
A consequência prática dessa distinção é trágica no debate público. O alerta vai ao fato de que é raro que o oponente político seja um vilão maquiavélico. Na maioria das vezes, só enxerga o mundo de um ângulo que não é o seu, com outros princípios.
No entanto, o cérebro humano não está preparado para essa constatação fria. A neurociência mostra que, em um debate, o sistema límbico (centro das emoções) interpreta a discordância como uma ameaça à integridade do grupo ou da identidade do indivíduo. Isso ativa o Viés de Ameaça Social, gatilho para a resposta de “luta ou fuga”.
É nesse momento que a argumentação lógica morre e nasce a falácia ad hominem. Em vez de refutar os dados do oponente, ataca-se a pessoa: sua aparência, seu caráter, sua sexualidade, sua origem. Se a escalada for física, evolui para as vias de fato, configurando infração penal.
“Quem bate e quem apanha”: a definição crua de Alysson Mascaro
Para não cair na armadilha da superficialidade e do “viés de confirmação” (onde só se busca informação que valida a própria bolha), é importante olhar para a substância do debate.
O jurista Alysson Leandro Mascaro, em entrevistas e obras recentes, oferece uma bússola moral que foge do maniqueísmo identitário. Para Mascaro, a diferença não está no discurso, mas na posição diante do poder.
Para o jurista, “ser de esquerda é estar do lado de quem apanha e não de quem bate. Estar do lado de quem sofre as dores do mundo e não do lado de quem as causa… Quando nós nos identificamos com aquele que bate, somos de direita; quando nós identificamos com quem apanha, somos de esquerda.”
A definição que parece lógica e simples, ainda que subjetiva, ecoa a teoria dos círculos. Quem se identifica com “quem bate” tende a olhar para dentro do seu círculo restrito (proteger o seu, mesmo que à custa dos que estão de fora). Quem se identifica com “quem apanha” expande o círculo para incluir o vulnerável, mesmo que distante.
Por fim, vivemos a era da “politicofrenia”, onde ser profundo como um pires e reagir por instinto é a regra. Entender a teoria do círculo moral de Peter Singer não é uma desculpa para relativizar violações de direitos humanos, mas uma ferramenta para desarmar a lógica do “nós contra eles”.
Reconhecer que o adversário opera sob uma escala de valores diferente, e muitas vezes mais restrita, permite sair do ataque pessoal e voltar ao argumento. Enquanto a direita acusa a esquerda de ser “cidadã do mundo” sem se importar com a própria casa, e a esquerda acusa a direita de egoísmo travestido de patriotismo, a sociedade se fragmenta.
O desafio, portanto, é alargar o debate sem romper o diálogo. Saber se você luta até o nível 5 ou até o nível 14 do círculo moral ajuda a explicar não apenas o seu voto, mas a sua humanidade. E também ajuda a lembrar que, antes de ser um adversário político, o outro é apenas alguém que parou de expandir seu círculo mais cedo.
Anita Tetslaff — Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na área de concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em administração de marketing, pela Uniderp. Especialista em metodologia do ensino, pela Universidade Braz Cubas/Unigran.
