Houve um tempo, antes do advento das redes sociais, dos reels histéricos e da política transformada em rinhas algorítmicas permanentes, em que esse período da pré-campanha eleitoral funcionava quase como uma espécie de purgatório emocional dos políticos. Era quando eles diminuíam as doses de ansiolíticos, reaprendiam a apertar mãos, decoravam nomes de eleitores esquecidos e tentavam recuperar alguma aparência de lucidez para enfrentar o inevitável corpo-a-corpo das ruas. Porque campanha eleitoral sempre foi também um gigantesco acerto de contas afetivas, financeiras e emocionais.
Compromissos antigos reapareciam nessas horas como fantasmas cobrando juros e correção monetária. Favores exigidos de volta. Promessas esquecidas ressuscitadas do nada. Pequenos abandonos transformados em mágoas eleitorais gigantescas. Sim, os políticos parecem aproveitar justamente a entressafra eleitoral para reforçar cofres, reorganizar alianças e, sobretudo, quitar dívidas políticas antes que a urna cobre tudo de uma vez.
Com as devidas exceções, claro. Há sempre aqueles, como um manjado figurão regional que, mesmo endinheirado, insiste em puxar o rodinho da mesa partidária para irrigar ainda mais seus próprios empreendimentos, como se política fosse apenas extensão patrimonial dos negócios privados. Tudo bem que efeitos colaterais de certas moléstias graves, como a Covid, por exemplo, possam eventualmente comprometer memória, coerência e até noções mínimas de gratidão política de alguns desses personagens. Mas, no geral, quem vive disso aprende cedo que, na pré-campanha, ou se honra compromissos antigos ou se corre o risco de reencontrar justamente aqueles que ficaram a ver navios depois de terem sido “convidados a ajudar”. Talvez por isso este velho insubordinado sempre tenha desconfiado profundamente de políticos, e até de certos benfeitores de ocasião, que conjugam o verbo “ajudar” nessas horas. Quase sempre, quando alguém muito poderoso pede “ajuda”, o que está realmente oferecendo ao outro é apenas o privilégio de dividir o prejuízo.
O problema é que a política brasileira entrou num estágio emocional tão deteriorado que até a velha amnésia seletiva dos profissionais do ramo parece ter saído do controle. E talvez o episódio ocorrido nesta terça-feira na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul seja uma síntese perfeita dessa nova degradação do debate público.
Primeiro veio o deputado estadual Zeca do PT, ex-governador, figura histórica da esquerda sul-mato-grossense, mandando avisar ao deputado federal Rodolfo Nogueira, o “gordinho do Bolsonaro”, que “da próxima vez ele vai apanhar”. Disse isso em pleno plenário, diante de microfones, câmeras e sob o manto civilizatório que teoricamente deveria separar divergência política de ameaça física explícita. A frase saiu carregada daquela velha indignação de militância envelhecida que já não distingue mais enfrentamento político de desforra emocional. Irritado com a rejeição de uma Moção de Apoio à vereadora Eliete Feitosa, a “Neguinha do PT”, e ainda atravessado pelos episódios recentes ocorridos em Mundo Novo durante a Festa das Nações, Zeca resolveu substituir a liturgia parlamentar pelo velho código do “manda avisar que eu resolvo lá fora”.
Até aí já seria suficientemente grave. Mas então veio a resposta de Rodolfo Nogueira nas redes sociais, condenando “a política do ódio”, dizendo não se intimidar com ameaças e cobrando responsabilização do petista por seus atos. E é justamente aí que a tragicomédia política brasileira atinge níveis quase literários de cinismo.
Porque estamos falando justamente de um dos parlamentares bolsonaristas mais agressivos do Estado, alguém que há meses se esgoela de seu ringue, nas redes sociais, alimentando o ambiente de guerra política permanente, tratando adversários ideológicos quase como inimigos existenciais a serem eliminados do mapa político nacional. Um ambiente onde expressões como “exterminar com os petistas”, “varrer a esquerda” e “destruir o comunismo” passaram a circular com assustadora naturalidade entre setores radicalizados da política brasileira. Ou seja: os mesmos personagens que passam meses brincando com gasolina agora aparecem indignados quando alguém risca um fósforo do outro lado.
É a clássica lógica do sujeito que transforma violência verbal em método político e depois se surpreende ao descobrir que o ambiente intoxicado devolve exatamente aquilo que ele próprio ajudou a construir. E talvez aí esteja o fenômeno mais preocupante dessa pré-campanha de 2026: a política deixou de funcionar como disputa racional por poder e passou a operar como mecanismo permanente de excitação emocional das próprias bolhas.
Ninguém mais quer convencer o adversário. Quer apenas humilhá-lo. Ninguém mais constrói pontes. Edita cortes para reels. Ninguém mais formula divergências. Formula lacrações. E o mais impressionante é que boa parte desses personagens parece sinceramente incapaz de perceber a própria incoerência. O sujeito passa anos naturalizando discurso agressivo, estimulando confrontos verbais e transformando adversários em inimigos absolutos… até o instante em que descobre, indignado, que o outro lado resolveu responder na mesma moeda.
É a memória política entrando em pane completa.
Talvez porque as redes sociais tenham destruído justamente aquilo que existia de mais civilizatório na política tradicional: o constrangimento. Antigamente até os políticos mais agressivos preservavam minimamente certas aparências institucionais. Havia excessos, claro. Mas ainda existia algum limite simbólico entre embate político e ameaça física explícita. Hoje o algoritmo recompensa exatamente o contrário. Premia o mais indignado, o mais explosivo, o mais teatral e o mais agressivo.
E assim vamos caminhando para uma eleição onde muitos parecem mais interessados em produzir vídeos virais do que propriamente construir projetos de governo. No fundo, talvez Zeca e Rodolfo sejam menos antagonistas do que imaginam. Porque ambos parecem filhos legítimos desse mesmo ambiente político intoxicado onde o ódio virou linguagem eleitoral rentável — até o instante em que o ódio do outro começa a incomodar.
