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sexta-feira, junho 19, 2026

Pobre Haiti. Ou será?

Vinte anos depois do histórico Jogo da Paz em Porto Príncipe, Brasil e Haiti voltam a se encontrar. Desta vez, não como símbolo de uma missão internacional, mas como personagens de uma Copa que insiste em lembrar aos gigantes que o passado não entra em campo.

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Houve um tempo em que o Brasil acreditava ser uma espécie de exportador mundial de esperança. Não exportava apenas soja, minério de ferro ou jogadores de futebol. Exportava autoestima. Exportava a sensação de que, apesar de todos os seus problemas, caminhava na direção certa. Quando Ronaldo levantou a taça do pentacampeonato em Yokohama, em 2002, o país parecia reconciliado consigo mesmo. Ronaldinho Gaúcho encantava o planeta, Kaká surgia como promessa de uma nova geração e o futebol brasileiro voltava a ser visto como patrimônio universal da alegria. Não por acaso, dois anos depois, quando a seleção desembarcou em Porto Príncipe para o chamado Jogo da Paz, não levava apenas chuteiras, uniformes e celebridades. Levava uma mensagem. O Brasil assumia o comando da missão das Nações Unidas no Haiti e, simbolicamente, apresentava ao país mais pobre das Américas aquilo que acreditava possuir de sobra: esperança.

Naqueles dias, poucos imaginariam que duas décadas mais tarde um simples confronto entre Brasil e Haiti numa Copa do Mundo seria capaz de provocar uma reflexão tão desconfortável. Porque durante muito tempo o Haiti ocupou um lugar específico no imaginário brasileiro. Era o país das tragédias. Dos terremotos. Da pobreza extrema. Da instabilidade política permanente. O país para o qual se enviava ajuda. O país que precisava de apoio. O país que olhava para o Brasil como quem procura uma referência. Nós éramos o contrário. Ou pelo menos gostávamos de acreditar que éramos. Éramos o Brasil do penta. O Brasil emergente. O Brasil que sonhava com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil que se preparava para sediar Copa do Mundo e Olimpíada. O Brasil que falava em protagonismo global com a mesma naturalidade com que falava em futebol.

Passaram-se pouco mais de vinte anos e o Haiti continua enfrentando seus dramas históricos. Mas o Brasil também mudou. Mudou sua relação com a política. Mudou sua relação com o futuro. Mudou sua relação consigo mesmo. Aquela confiança quase juvenil que embalava o país no início do século parece ter dado lugar a uma estranha nostalgia coletiva. Como se estivéssemos permanentemente revisitando fotografias antigas para lembrar quem fomos. Talvez seja por isso que a imagem de Mbappé comemorando um gol tocando flauta em homenagem ao pai tenha produzido tanto significado nesta Copa. O francês olha para trás para seguir em frente. O Brasil, às vezes, parece olhar para trás apenas para permanecer parado. Foi essa sensação que me veio à cabeça ao lembrar de Dom & Ravel, da camisa que um dia foi de todos, da seleção que embalava sonhos nacionais e daquela antiga convicção de que bastava vestir o amarelo para que o país inteiro se reconhecesse diante do espelho.

E então surge novamente o Haiti. Não mais como destinatário da esperança brasileira. Não mais como palco de uma missão internacional. Mas como adversário dentro das quatro linhas. Essas mesmas quatro linhas que, segundo certa tradição política recente, resolveriam todos os problemas nacionais. O futebol, entretanto, não costuma respeitar discursos. Muito menos nostalgias. Esta Copa já mostrou isso. Cabo Verde empatou com a poderosa Espanha. Marrocos encarou o Brasil sem pedir licença. Os Estados Unidos atropelaram o Paraguai. Os pequenos perderam o medo. Os grandes continuam tentando entender o que aconteceu.

É por isso que aquela frase escrita quase por brincadeira ao final da última crônica continua ecoando mais do que deveria. “Pobre Haiti”. Ou será “pobre Brasil?”. Não porque o Haiti tenha se transformado numa potência futebolística nem porque o Brasil tenha deixado de ser gigante. Mas porque os gigantes costumam ser os últimos a perceber quando o mundo muda. Em 2004, o Brasil foi ao Haiti ensinar esperança. Em 2026, talvez seja o Haiti quem ajude o Brasil a lembrar que nenhuma glória passada ganha jogo futuro. Nem Copa do Mundo. Nem protagonismo internacional. Nem destino histórico.

Talvez esta seja, no fundo, a grande lição desta Copa. A memória é um excelente lugar para visitar. Mas um péssimo lugar para morar.

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