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quinta-feira, setembro 24, 2026

Com Bolsonaro preso, Gianni Nogueira alavanca campanha no Google

Escolhida pelo ex-presidente para disputar o Senado, candidata perdeu espaço para Azambuja e agora usa dados nacionais de buscas para tentar encontrar no algoritmo os votos que ainda procura em Mato Grosso do Sul.

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Valfrido Silva*

Sem Jair Bolsonaro no palanque para levantar seu braço, Gianni Nogueira resolveu recorrer ao único cabo eleitoral capaz de entrar simultaneamente em todos os celulares sem pedir autorização ao Supremo: o Google. A vice-prefeita de Dourados, que chegou a ser anunciada pelo ex-presidente como sua candidata ao Senado em Mato Grosso do Sul, perdeu a vaga para Reinaldo Azambuja, desceu alguns andares na disputa e agora tenta alavancar pelo algoritmo a campanha para deputada estadual. Bolsonaro está em prisão domiciliar, impedido de participar de atividades político-eleitorais. O buscador, felizmente para Gianni, continua solto.

Bons tempos aqueles em candidatos saía à rua para procurar eleitor, visitava associação de moradores, sindicato, comércio, escola, hospital, assentamento, feira livre e até velório, dependendo do grau de necessidade eleitoral. Era a melhor estratégia para a apresentação de propostas, ouvir reivindicações, beijar crianças; os que entendiam mais do riscado comiam pastel e tomavam cafezinho sob temperatura incompatível com a dignidade humana. Agora, o candidato procura o eleitor no Google.

A candidata a deputada estadual Gianni Nogueira, do PL, acaba de apresentar ao eleitorado uma novidade que talvez revolucione a ciência política: o programa de governo otimizado para mecanismo de busca. Em vez de começar por um problema de Mato Grosso do Sul e explicar como pretende enfrentá-lo na Assembleia Legislativa, sua assessoria decidiu começar pelas palavras que os brasileiros andam digitando no celular.

A justificativa é que nos últimos 30 dias, as buscas por “deputado direita” cresceram 1.200% no Brasil, enquanto “deputado esquerda” avançaram a metade, 600%. Desde o início oficial da campanha, as pesquisas do tipo “é de direita ou esquerda?” teriam aumentado 180%. Os números são da newsletter eleitoral do Google Trends e foram publicados nacionalmente. A própria assessoria explicou, com uma sinceridade comovente, o objetivo da operação: “Essa é uma estratégia para o buscador do Google. Quando tiver pesquisa de candidato a deputado estadual, aparecer ela.”

Não se trata exatamente de informar ao eleitor o que Gianni pretende fazer. Trata-se de informar ao algoritmo aquilo que ele deve encontrar quando alguém perguntar ao Google onde fica uma candidata de direita em Mato Grosso do Sul. A política, depois de trocar o palanque pelo vídeo vertical, acaba de substituir o programa de governo pelo conjunto de palavras-chave.

O problema é que os números apresentados são nacionais. Não há no material uma única informação que demonstre aumento semelhante das buscas em Mato Grosso do Sul. O eleitor paulista, carioca, baiano ou gaúcho pode ter desenvolvido uma curiosidade súbita sobre a posição ideológica dos candidatos, mas isso não significa que o sul-mato-grossense tenha acordado perguntando ao celular onde encontrar uma deputada de direita em Dourados.

A realidade estadual disponível é bem menos exuberante que os 1.200% importados de Brasília. Em julho, Gianni aparecia com 0,30% na pesquisa espontânea do Instituto Ranking para deputada estadual. No levantamento mais recente, realizado entre 14 e 18 de setembro, chegou a 1,15%. Houve crescimento, evidentemente. Em relação à primeira pesquisa divulgada em julho, quando tinha 0,10%, a candidata multiplicou sua intenção de voto por mais de dez. O porcentual impressiona até alguém lembrar que dez vezes quase nada ainda exige bastante trabalho para virar alguma coisa.

Com 1,15%, Gianni aparece empatada com a sargento Betânia e Ana Portela, atrás de Paulo Corrêa, Márcio Fernandes, Odilon Ribeiro, Coronel David, Lucas de Lima e Sindoley Moraes dentro do próprio PL. Não está invisível, mas também ainda não chegou ao ponto de dispensar bússola, binóculo ou ferramenta de busca. Talvez por isso a campanha tenha decidido procurar no Google o impulso que ainda não encontrou inteiramente nas ruas.

Gianni tem ativos políticos que o algoritmo não consegue medir. É vice-prefeita da segunda maior cidade do Estado, preside o PL Mulher em Mato Grosso do Sul, carrega o sobrenome, a estrutura e a dona do cartão de crédito do marido, como gosta de informar o deputado federal Rodolfo Nogueira. Mais ela desfruta de intimidade política com Jair e Michelle Bolsonaro. Em abril de 2025, o próprio Bolsonaro a anunciou como possível candidata ao Senado, dizendo tratar-se da esposa de “um grande amigo” e de um nome de sua confiança.

O projeto era mais ambicioso. Gianni seria a candidata bolsonarista ao Senado, até Reinaldo Azambuja atravessar a pista com estrutura partidária, alianças, experiência, pesquisas e aquela delicadeza característica dos tratores quando encontram uma bicicleta pelo caminho. Apeada da disputa majoritária, a escolhida de Bolsonaro desceu alguns andares e passou a procurar uma cadeira na Assembleia Legislativa.

Não há desonra nisso. A Assembleia é uma instituição fundamental e deveria receber candidatos preparados para discutir orçamento, tributos estaduais, fiscalização do Executivo, segurança pública, educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento regional. O curioso é que o release destinado a divulgar Gianni como alternativa dedica muito mais energia a provar que ela é “de direita” do que a explicar o que diferencia suas propostas das apresentadas pelos outros quinze candidatos do PL.

Ela é contra o aborto, contra a legalização das drogas, a favor da família, das crianças, da segurança, da saúde e do agronegócio. Um pacote tão cuidadosamente genérico que dificilmente encontraria oposição até numa reunião de condomínio. Algumas dessas questões, como a legislação sobre aborto e drogas, pertencem principalmente à esfera federal. A assessoria reconhece isso no próprio texto, mas não permite que a Constituição atrapalhe uma boa palavra-chave.

As propostas estaduais aparecem depois, quase pedindo licença: proteção à infância, prevenção ao abuso, fortalecimento das forças de segurança, apoio ao seguro rural, regionalização da saúde e enfrentamento à violência contra a mulher. São temas legítimos, alguns até importantes, mas apresentados sem metas, custos, prazos ou instrumentos legislativos. A candidata oferece a direção ideológica; o eleitor, se desejar detalhes, talvez possa procurá-los no Google.

A estratégia revela uma transformação curiosa da campanha eleitoral. Antigamente, primeiro o candidato construía uma identidade política e depois tentava comunicá-la. Agora, consulta aquilo que está em alta no buscador e organiza sua identidade ao redor da pesquisa. Se amanhã crescerem 2.000% as buscas por “deputado que gosta de capivara”, não será surpresa recebermos um release informando que Gianni sempre defendeu a família, a liberdade, o agronegócio e os direitos fundamentais das capivaras.

Ser de direita é uma posição política legítima. Ser de esquerda também. O que se espera de quem disputa uma vaga no Legislativo é algo um pouco mais trabalhoso: conhecimento das competências do cargo, compreensão dos problemas do Estado e capacidade de propor soluções que sobrevivam além da etiqueta ideológica. Direita e esquerda ajudam o eleitor a localizar o candidato no mapa. Não informam, sozinhas, se ele sabe dirigir.

Depois de perder a candidatura ao Senado para Reinaldo Azambuja, Gianni procura espaço na Assembleia. Até aí, tudo normal. O inusitado é que, antes de conquistar o eleitor, a campanha decidiu conquistar o algoritmo.

Se funcionar, o Google a colocará na primeira página. Resta saber se a urna fará o mesmo.

* Jornalista e editor do contrapontoMS, em parceria de inteligência colaborativa humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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