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terça-feira, setembro 29, 2026

Dinheiro vivo não morre na urna e pode derrubar candidato

Dois episódios envolvem candidatos nesta reta final de campanha; defesas apresentam explicações comerciais e policiais ainda investigam a origem e a destinação dos valores

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Valfrido Silva

Na última semana da campanha eleitoral, as pesquisas começam a dividir espaço com uma aferição muito mais rudimentar: a contagem de dinheiro vivo. Enquanto institutos medem intenções de voto e marqueteiros tentam descobrir o que ainda pode ser comprado em alcance digital, mais de R$ 1 milhão em espécie apareceu, em poucos dias, em duas ações da Polícia Federal envolvendo personagens ligados a candidatos em Mato Grosso do Sul. As investigações ainda não permitem afirmar que os valores seriam destinados às campanhas, e os envolvidos apresentam explicações para a origem e o destino do dinheiro. Mas a coincidência entre as “pacoteiras” e a proximidade das urnas é suficiente para acender todas as luzes do painel eleitoral.

Campanhas experientes conhecem os perigos do dinheiro fora das contas oficiais. Por isso, quando existem recursos que não passaram pelas cotas do fundo eleitoral nem aparecem nas prestações de contas, a logística costuma acompanhar a sofisticação usada pelo crime organizado para transportar drogas. Assim como traficantes escondem cocaína e maconha em cargas de madeira, soja, carne, pneus e compartimentos preparados, operadores eleitorais clandestinos aprenderam que dinheiro também precisa viajar disfarçado. Na fronteira, o folclore fala em notas misturadas a fardos de santinhos e mercadorias aparentemente inocentes. O papel que pede voto serviria de embalagem para o papel que ajuda a consegui-lo.

Os profissionais tomam cuidado. Os marinheiros de primeira viagem ainda acreditam que a melhor maneira de impressionar cabos eleitorais seja deixar pacotes à vista sobre mesas de escritórios, como se a exposição do dinheiro funcionasse como demonstração de força. Nem sempre termina bem. Mato Grosso do Sul já acumulou flagrantes que resultaram em cassação de registros, perda de mandatos, condenações e até prisão.

Dourados conhece essa história. A Operação Uragano, já em andamento, foi escancarada justamente por uma pacoteira com dinheiro vivo transportado para o pagamento de propina a políticos. O condutor da mala foi abordado num posto de combustíveis às margens da BR-163 e não resistiu à pressão do interrogatório. De carregador da encomenda, passou a colaborador da investigação que, em 2010, atingiu a Prefeitura, prendeu o então prefeito Ari Artuzi, o vice, vereadores, servidores e empresários. A pacoteira encontrada na estrada ajudou a abrir a porta para o maior escândalo político da história douradense.

Dezesseis anos depois, o dinheiro vivo continua circulando, embora as explicações tenham se modernizado. Em Campo Grande, a Polícia Federal apreendeu mais de R$ 250 mil durante a Operação Jogo Limpo, que investiga possível corrupção eleitoral e falsidade ideológica. As buscas alcançaram o comitê e o apartamento do deputado estadual Márcio Fernandes, candidato à reeleição pelo PL. A investigação teria começado depois de o Coaf detectar movimentações consideradas atípicas.

Márcio Fernandes foi abordado quando sacava R$ 100 mil numa agência do Banco do Brasil. Segundo o deputado, o dinheiro seria utilizado no pagamento de funcionários e de outras despesas relacionadas às suas propriedades rurais. Nas diligências seguintes, os policiais encontraram outros valores, além de celulares, um pendrive e materiais de campanha. O parlamentar não foi preso e deverá disputar normalmente a eleição enquanto o inquérito apura a origem e a finalidade dos recursos.

Na fronteira, a quantia foi ainda maior. A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União apreenderam R$ 800 mil com uma funcionária da Universidad Interamericana, antiga Universidade Central do Paraguai, quando ela deixava uma agência do Banco do Brasil em Ponta Porã. O dinheiro havia sido sacado de uma conta mantida pela universidade paraguaia e, segundo a investigação, seria transportado para Pedro Juan Caballero. A mulher foi presa em flagrante por possível tentativa de evasão de divisas, pagou fiança e foi liberada.

A instituição tem ligação histórica com Carlos Bernardo, empresário e candidato a deputado federal pelo União Brasil. Ele fundou a UCP, possui negócios e residências nos dois lados da fronteira e declarou à Justiça Eleitoral participação na UCP Medicina PY. Carlos Bernardo, entretanto, nega ser o dono dos R$ 800 mil e afirma estar afastado das decisões administrativas da universidade. Segundo a defesa, o dinheiro seria destinado ao pagamento de dois ônibus adquiridos pela empresa. A documentação da compra foi apresentada à Polícia Federal.

Até agora, a PF não anunciou qualquer elemento que relacione os R$ 800 mil à candidatura de Carlos Bernardo ou a uma possível compra de votos. O advogado também afirma que nenhuma imputação dessa natureza foi apresentada durante o procedimento. A proximidade política e empresarial, por si só, não transforma uma apreensão por tentativa de evasão de divisas em crime eleitoral.

O passado do candidato, porém, ajuda a explicar por que o episódio repercutiu imediatamente na campanha. Nas eleições municipais de 2020, Carlos Bernardo doou R$ 90 mil à candidatura de Rogério Rezende Silva à Prefeitura de Itumbiara, em Goiás. Pelos rendimentos declarados, poderia contribuir com pouco mais de R$ 20,7 mil. O excesso superou R$ 69 mil e representou mais de 26% de toda a arrecadação do candidato beneficiado.

A doação acima do limite resultou em condenação, multa e problemas sucessivos nos registros eleitorais de Carlos Bernardo. Em 2022, ele ficou impedido de disputar uma vaga de deputado federal. Neste ano, a Procuradoria voltou a pedir a impugnação, mas o TRE-MS deferiu o registro por quatro votos a um. O caso ainda não terminou definitivamente e a candidatura aparece no sistema eleitoral como deferida com recurso.

Carlos Bernardo já demonstrou, portanto, disposição para ajudar financeiramente até candidato de outro Estado. Seria precipitado concluir que a mesma generosidade explica os R$ 800 mil apreendidos com a funcionária da universidade. Mas seria igualmente ingênuo imaginar que, na última semana de campanha, tamanha quantidade de dinheiro vivo poderia circular pela fronteira sem despertar perguntas.

De um lado, R$ 250 mil seriam destinados às despesas de fazendas. Do outro, R$ 800 mil pagariam dois ônibus no Paraguai. As duas explicações poderão ser confirmadas pelos documentos e pelas investigações. Até lá, resta à Polícia Federal seguir o dinheiro, enquanto a Justiça Eleitoral acompanha a movimentação das campanhas.

Na reta final, os santinhos não viajam sozinhos. Algumas cargas parecem pesadas demais para conter apenas papel.

(*) Jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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