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sábado, outubro 3, 2026

Chegou a hora da onça beber água, e de olhar o avesso do bastidor

Na véspera da eleição, Mato Grosso do Sul põe à prova a gestão de Riedel, a costura de Azambuja e os candidatos que tentaram escapar do desenho do poder

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Valfrido Silva*

O governador Eduardo Riedel chega à véspera da eleição como a figura principal de um bordado cujo bastidor Reinaldo Azambuja ajudou a montar. Quem viu as bordadeiras de antigamente reconhecerá a peça: dois aros de bambu, um encaixado no outro, prendendo o pano para que a agulha desenhasse flores, passarinhos e outras delicadezas destinadas à cozinha. A beleza ficava na frente. Os nós, as emendas e os fios atravessados apareciam no avesso. Em terras pantaneiras, chegou a hora da onça beber água. E de o eleitor virar o pano antes de decidir se leva o bordado para casa.

Azambuja, representante de uma família tradicional de Mato Grosso do Sul, fez uma costura que parecia improvável: ajudou a transformar um estreante nas urnas em seu sucessor. Riedel era um outsider eleitoral, embora já conhecesse por dentro a administração que pretendia comandar. Deu um baita governador, e chega ao julgamento popular com uma gestão que merece ser examinada por seus resultados. Mas o pano de fundo da reeleição também foi preso por alianças, prefeitos, estruturas partidárias e interesses que não desaparecem só porque o desenho ficou bonito. Reconhecer o mérito do governante não obriga ninguém a fechar os olhos para o bastidor.

Do outro lado do pano apareceu Fábio Trad, filho do ex-deputado federal Nelson Trad e irmão de Nelsinho, ex-prefeito da capital e hoje senador e também de Marquinhos, também prefeito da capital. Uma família cuja tradição política dispensa apresentação. O curioso é que nem o sobrenome mantém todos os fios na mesma direção: Fábio enfrenta Riedel bravamente, enquanto Nelsinho apoia o governador. O parentesco não eliminou a divergência, assim como o apoio de Lula não dispensa Fábio de convencer o eleitor de que oferece uma alternativa melhor. Entre a continuidade administrativa e a mudança prometida, cabe comparar projetos, capacidade e compromissos. Árvore genealógica pode explicar uma candidatura; não deveria decidir um governo.

João Henrique Catan acrescentou outra ironia ao tecido. Neto do ex-governador Marcelo Miranda, o deputado estadual bolsonarista raiz resolveu enfrentar o sistema sem o espaço da propaganda gratuita na televisão. Sua metralhadora giratória de críticas encontrou no grupo governista um alvo permanente e fez barulho muito além do tamanho de sua estrutura. Foi um dos candidatos que mais ameaçaram a costura estabelecida. Resta saber quanto desse incômodo se transformará em voto. Pode surpreender na última curva, mas surpresa é possibilidade, não resultado antecipado. Nem toda rajada acerta o alvo; nem todo silêncio significa concordância.

Para o Senado, o bordado ficou ainda menos obediente ao risco original. Azambuja procura converter comando político em mandato; Capitão Contar disputa espaço no mesmo campo; Vander Loubet busca transformar o apoio presidencial em votos. Soraya Thronicke, que adotou a imagem da onça, tenta conservar sua cadeira. Agora todos precisam chegar à mesma água: a decisão do eleitor. A disciplina dos palanques será testada justamente onde o voto é mais livre que a fotografia de campanha. A urna não reconhece dono de rebanho, e as famosas garrafas vazias dos cabos eleitorais não vêm com certificado de votos dentro.

O avesso do bordado eleitoral ficou à mostra nas promessas, nas agressões que tomaram o lugar das ideias e nos episódios que trouxeram o dinheiro vivo de volta ao centro das perguntas. Ali também apareceram os nós entre o desempenho de um governo e os interesses de quem lhe sustenta o bastidor. Cabe à Justiça examinar essas emendas, cobrar explicações e distinguir suspeita de prova, sem fazer da aprovação administrativa um salvo-conduto. Neste domingo, o eleitor levará à urna o que viu, o que ouviu e o que guardou em silêncio. As bordadeiras de antigamente sabiam: retirados os aros, o pano precisava sustentar sozinho a beleza prometida pelo desenho. Os palanques já foram desmontados e as bandeiras recolhidas, agora é exclusivamente com o eleitor. Porque os fios desta eleição continuarão atravessando a vida de quem fica, muito depois de passada a festa de quem ganhou.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

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