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domingo, outubro 4, 2026

Antes da chuva de números, a eleição foi disputada debaixo d’água

Temporais castigaram várias regiões do país e podem ter elevado a abstenção; em Mato Grosso do Sul, a pergunta não é apenas quantos deixaram de votar, mas onde esses votos ficaram pelo caminho

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Valfrido Silva *

Antes da chuva de números, de votos, veio um aguaceiro de verdade. Em boa parte do Brasil, o eleitor enfrentou temporais, ruas alagadas, falta de energia e aquela tentação irresistível de permanecer em casa, debaixo das cobertas, deixando a democracia resolver seus problemas sozinha. Do Sul ao Centro-Oeste, passando por áreas do Sudeste, a eleição deste domingo foi realizada sob alertas meteorológicos, com previsão de ventos fortes, granizo e volumes elevados de água. No Rio Grande do Sul, 14 locais de votação chegaram a ficar sem energia, embora as urnas tenham continuado funcionando com baterias internas.

Mato Grosso do Sul não escapou. Em Campo Grande, a chuva ajudou a esvaziar seções durante parte da manhã. Em Dourados, onde o temporal começou por volta das quatro horas, foram registrados mais de 40 milímetros em poucas horas. Ainda assim, houve eleitores que preferiram chegar cedo, antes que a água aumentasse ou a coragem diminuísse. O movimento variou entre tranquilo e moderado, conforme o local e o horário — suficiente para produzir imagens de corredores vazios, mas ainda insuficiente para decretar uma explosão da abstenção.

A fotografia engana. Escola vazia às nove da manhã pode significar eleitor ausente, eleitor atrasado ou simplesmente eleitor precavido que votou às sete e voltou para casa antes do aguaceiro. A abstenção verdadeira somente aparecerá depois do fechamento das urnas, quando será possível comparar o comparecimento deste domingo com o de 2022. Naquela eleição, 22,08% dos eleitores de Mato Grosso do Sul não compareceram no primeiro turno. Em Dourados, a ausência ficou em 20,83%, o equivalente a mais de 35 mil eleitores.

Mas a pergunta política já está posta: quem ganha se a chuva realmente tiver aumentado a abstenção?

A resposta fácil seria apontar imediatamente para quem lidera as pesquisas. A resposta correta é mais trabalhosa. Abstenção não tem partido, mas tem endereço, renda, idade e dificuldade de locomoção. Quando cresce principalmente nas periferias, entre jovens, trabalhadores de menor renda e eleitores dependentes do transporte coletivo, costuma atingir com maior força candidaturas que precisam mobilizar esse contingente. Quando alcança o interior, áreas rurais e estradas comprometidas, pode prejudicar justamente as estruturas tradicionais, acostumadas a transportar até a urna um eleitorado fiel e conhecido pelo nome.

Na eleição para governador, uma abstenção elevada tende, em princípio, a proteger Eduardo Riedel. O governador chegou ao domingo na liderança, amparado por uma coligação extensa, prefeitos, vereadores e uma estrutura organizada nos municípios. Quem está na frente geralmente precisa conservar sua vantagem; quem está atrás precisa encontrar votos novos e levá-los até a urna. Se a chuva segurou em casa parte do eleitorado mais periférico e descontente, Fábio Trad pode ter perdido justamente votos indispensáveis para impedir uma decisão no primeiro turno. É uma hipótese, não ainda um resultado.

Na disputa pelo Senado, a conta é mais traiçoeira. Reinaldo Azambuja e Capitão Contar dispõem do eleitorado bolsonarista, mais definido e aparentemente mais disciplinado. Vander Loubet chega sustentado por sindicalistas, trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas e setores populares — grupos organizados, mas parte deles submetida a maiores dificuldades de deslocamento. Soraya Thronicke depende de uma combinação mais difusa, formada também por eleitores que decidem nas últimas horas. Se a abstenção cresceu, a chuva pode ter diminuído o universo em que as surpresas costumam nascer.

Dourados será um bom termômetro. Com aproximadamente 166 mil eleitores, o município reúne bairros periféricos, eleitorado rural, assentamentos, aldeias indígenas, setores do agronegócio e uma classe média fortemente identificada com a direita. Não bastará saber quantos douradenses deixaram de votar. Será preciso verificar em quais zonas eleitorais a ausência aumentou. A mesma abstenção que pode reduzir votos de Vander nas áreas populares pode retirar votos de Contar ou Reinaldo em regiões conservadoras atingidas pelo temporal.

A chuva molhou santinhos, afastou cabos eleitorais das esquinas e talvez tenha convencido muita gente a trocar a urna pelo sofá. Mas seria precipitado anunciar quem ganhou com isso antes de localizar os ausentes. A abstenção não deposita voto em candidato algum; apenas altera o tamanho do campo em que os votos presentes serão contados.

Daqui a pouco, quando as urnas forem abertas, não chegarão apenas os resultados. Virá também a resposta sobre o peso da água nesta eleição. Porque, depois de uma campanha marcada por uma enxurrada de pesquisas, promessas e dinheiro vivo, faltava apenas a contribuição das nuvens.


(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano-IA, sob revisão e edição final do autor.

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