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domingo, outubro 4, 2026

Presidente do TSE garante que não encontrou a mão de Trump nas urnas

Presidente da Corte Eleitoral afirma que não há indício de interferência estrangeira; apoio político, ameaças e bravatas vindas dos Estados Unidos, porém, ninguém precisou investigar para enxergar

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Depois de uma campanha em que Donald Trump esteve quase tão presente quanto os candidatos brasileiros, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, apareceu neste domingo para assegurar que a mão do presidente americano não chegou às urnas. “Até o momento, nós não temos nenhum indicativo concreto de interferência internacional”, afirmou durante o balanço parcial da votação. Também não foram identificadas ameaças provenientes do crime organizado ou riscos capazes de comprometer o processo eleitoral.

A declaração era necessária depois de meses em que a hipótese de intervenção estrangeira deixou de frequentar apenas os porões da teoria conspiratória e passou a ocupar gabinetes oficiais. A Agência Brasileira de Inteligência havia alertado o governo e o próprio TSE para possíveis movimentos externos. A Polícia Federal abriu procedimento preliminar para apurar riscos relacionados às representações diplomáticas, enquanto a embaixada e os consulados dos Estados Unidos suspenderam temporariamente seus atendimentos. Nunes Marques tratou a medida como precaução comum em eleições polarizadas e informou que nem os relatórios da Justiça Eleitoral, nem a PF, nem a Abin encontraram ameaça concreta.

Uma coisa, entretanto, é interferir no funcionamento das urnas, financiar clandestinamente uma campanha ou tentar sabotar a votação. Outra, bastante visível, é procurar influenciar politicamente o eleitor brasileiro. Nesse segundo campeonato, Trump não atuou nos bastidores. Entrou em campo uniformizado, escolheu lado, distribuiu ameaças, aproximou-se dos Bolsonaro e transformou a eleição brasileira em mais um capítulo de sua disputa pela influência sobre a América Latina. Lula, naturalmente, aproveitou cada bravata para vestir novamente o figurino de defensor da soberania nacional.

Houve até demonstração de que as porteiras digitais permanecem vulneráveis. Estudo divulgado durante a campanha apontou que a Meta aprovou, num teste, anúncios políticos falsos produzidos com inteligência artificial, pagos por uma conta americana e destinados ao público brasileiro. As peças não chegaram a ser veiculadas, mas o experimento mostrou que a tecnologia capaz de transportar desinformação através das fronteiras já está pronta — e aparentemente encontra menos fiscalização que muita carreta atravessando a linha entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã.

Foi justamente para vigiar esse território que o TSE montou uma sala de monitoramento com representantes das grandes plataformas digitais. Também recebeu observadores internacionais, realizou testes de integridade, emitiu a zerésima da totalização e repetiu que as urnas funcionam com segurança e possibilidade de auditoria. Segundo Nunes Marques, muitos aspectos da eleição podem ser questionados, “mas não o sistema eleitoral”.

É uma boa notícia. Significa que o eleitor brasileiro pode ter votado influenciado por Trump, irritado com Trump, assustado por Trump ou mobilizado contra Trump — mas não há indício de que o americano tenha conseguido votar por ele. A diferença é fundamental. Democracia alguma consegue impedir presidentes estrangeiros de falar, apoiar aliados ou cometer bravatas. O que precisa impedir é que essas manifestações atravessem a fronteira entre a pressão política e a adulteração do processo eleitoral.

Enquanto a apuração não começa, portanto, uma suspeita já pode ser retirada da urna: segundo o presidente do TSE, não apareceu qualquer impressão digital estrangeira sobre os votos. Trump participou ruidosamente da campanha, mas, até prova em contrário, não encontrou a senha da urna eletrônica brasileira.

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