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quinta-feira, outubro 8, 2026

Riedel entrega a Barbosinha a prancheta do segundo mandato

Vice-governador coordena o grupo que definirá prioridades, custos e mudanças na máquina estadual, reforçando o peso de Dourados no centro do próximo governo

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Valfrido Silva*

O governador Eduardo Riedel nem quis esperar a ressaca da vitória, recolher as faixas espalhadas pelo Estado nem terminar de agradecer os 914.323 votos que lhe garantiram a reeleição histórica no primeiro turno. Um dia depois de sair das urnas com 67,07% dos votos válidos, assinou o decreto que começou a desenhar o governo de 2027 a 2030. E, quando chegou a hora de escolher quem seguraria a prancheta, conferiria as medidas, calcularia os custos e separaria as promessas possíveis daquelas que precisam de reforma, dinheiro ou milagre, entregou novamente a missão a José Carlos Barbosa, o vice-governador Barbosinha.

Não se trata exatamente de uma transição entre governos, pois Riedel fará a transição de si para si mesmo. O governador permanece, o vice também e boa parte da máquina poderá atravessar a ponte sem trocar sequer de crachá. Ainda assim, o grupo criado pelo Decreto nº 16.806 terá trabalho de mudança: mapear programas em andamento, identificar gargalos administrativos, estimar impactos financeiros, propor alterações na estrutura do Estado, preparar projetos de lei, estabelecer metas, indicadores e cronogramas e compatibilizar tudo isso com o orçamento. Até o fim de novembro, quando muita gente ainda estará escolhendo gravata para a posse, Barbosinha deverá entregar o esqueleto do segundo mandato.

A escolha confirma aquilo que o contrapontoMS observou logo depois das urnas: Barbosinha não é o vice colocado na fotografia para preencher o espaço entre o governador e a bandeira. É o curinga de Riedel, acionado quando o jogo exige confiança, discrição, experiência administrativa e capacidade de conversar com quem não se sentaria espontaneamente à mesma mesa. Durante o primeiro mandato, ajudou a governar, representou Riedel nos municípios, participou das articulações políticas e deu ao titular a tranquilidade de viajar sem precisar olhar pelo retrovisor. Agora recebe tarefa ainda mais delicada: transformar um programa eleitoral em governo exequível.

O simbolismo é especialmente importante para Dourados. A segunda maior cidade do Estado não estará apenas representada pela origem política do vice-governador. Também terá no grupo o secretário da Casa Civil, Waltinho Carneiro, outro douradense instalado no centro nervoso da administração. Barbosinha coordenará; Waltinho ajudará a fazer a engrenagem política e administrativa girar. Enquanto deputados eleitos comemoram mandatos e começam a calcular emendas, dois nomes ligados a Dourados já se encontram diante da planilha que decidirá onde o Estado pretende investir, quais estruturas poderá modificar e quanto custará cumprir o que prometeu.

A missão combina com a trajetória de Barbosinha. Prefeito de Angélica ainda muito jovem, advogado, professor de Direito, deputado estadual, secretário de Justiça e Segurança Pública e presidente da Sanesul, conhece tanto o balcão político quanto a sala de máquinas. Na empresa de saneamento, recebeu a tarefa de reorganizar as contas e ajudou a afastar a privatização. Na Segurança Pública, enfrentou uma das áreas mais espinhosas do governo. Na Vice-Governadoria, ajudou a ressignificar um cargo que durante muito tempo serviu apenas para substituir o titular em viagens e comparecer a solenidades quando a agenda principal estava lotada.

Riedel também mandou um recado aos aliados ao afirmar que não pretende lotear o segundo governo. Primeiro serão definidas a estrutura, as prioridades e as necessidades de cada área; somente depois virão os nomes. É uma maneira elegante de avisar aos candidatos derrotados, partidos da coligação e novos credores eleitorais que a sala de espera ainda não abriu. A máquina não será desenhada para acomodar pessoas, garante o governador; as pessoas serão escolhidas para caber na máquina. Entre a promessa e a prática existe, naturalmente, toda a tradição política brasileira, mas Barbosinha terá de ajudar a impedir que a planta original termine alterada para receber puxadinhos partidários.

O grupo não cuidará apenas do que fazer. Precisará descobrir com que dinheiro fazer. Riedel já demonstrou preocupação com os efeitos da reforma tributária, com os limites da arrecadação e com a perda de receitas decorrente da redução das importações do gás boliviano. É nesse ponto que a prancheta se encontra com a calculadora. Promessa eleitoral aceita discurso; orçamento exige número. Governar é escolher prioridades, e escolher prioridades significa também determinar aquilo que ficará esperando.

Ao colocar Barbosinha na coordenação, Riedel reafirma uma parceria que atravessou o primeiro mandato e saiu das urnas fortalecida. O vice, que chegou à chapa de 2022 quase na undécima hora e manteve o cargo à disposição das negociações até perto da eleição deste ano, começa o novo ciclo no primeiro minuto. Não precisou reivindicar espaço nem bater à porta. Recebeu a chave da sala em que o próximo governo será desenhado.

Para Dourados, é uma posição que vale mais do que discursos regionalistas e fotografias de campanha. A cidade terá o vice-governador conduzindo o planejamento e o secretário da Casa Civil participando das decisões. Não significa licença para puxar o cobertor estadual para o Sul, mas garante que as demandas da região não chegarão a uma mesa inteiramente ocupada por quem precisa consultar o mapa para localizar a Grande Dourados, o Vale do Ivinhema, a fronteira e o Conesul.

Chamamos Barbosinha de curinga porque ele pode ocupar diferentes posições sem fazer barulho. Riedel acaba de confirmar a metáfora. Terminada a eleição, enquanto vencedores experimentam ternos e derrotados procuram explicações, o governador colocou seu vice diante da prancheta e lhe entregou a tarefa de conferir se o governo prometido cabe no terreno, no orçamento e nos próximos quatro anos.

O curinga continua sem fazer alarde. Mas agora é ele quem ajuda a embaralhar, organizar e distribuir as cartas do segundo mandato.

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