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sexta-feira, outubro 9, 2026

Uma sede de conhecimento

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Curvada pelo tempo e com o corpo pendendo para a direita, segura uma das grades do portão da frente de sua casa. Olha em direção a um ponto adiante.

— O que está olhando?

— Aquele caminhão amarelo, do outro lado da rua. O que ele faz? É de entrega? De quê?

Seus olhos já não veem bem, mas ela teve medo de fazer a cirurgia de catarata quando ainda era possível.

— Ela continua a cuidar da vida do bairro — diz a filha, ao seu lado.

O tempo não matou sua curiosidade. Ela sempre quis conhecer. Lugares, produtos, pessoas, os preços disso e daquilo. Quanto custa uma casa, um sítio… Queria comprar, nunca vender bens, com medo de que o futuro lhe pregasse peças.

“Vender, não! Não!”, era o que dizia quando seu marido lhe sugeria alguma venda.

Mas como poderia conhecer o vasto mundo quando tinha uma vida regrada, começando por levantar-se cedo e cuidar do café da manhã para todos os membros da família numerosa? Depois do café, era preciso pensar no almoço, cuidar das crianças, prepará-las para a escola… Era roupa para lavar pela manhã e passar à tarde. O ferro de passar roupa, aquecido pela brasa, e tudo passava por ele.

Quando sobrava um tempinho, vinham as costuras para a família: blusas, calças curtas e compridas, vestidos, panos de prato que, depois de lavados até ficarem muito brancos, recebiam os bordados. Eram pássaros, flores, casas… para alegrar os nossos olhos.

E o cuidado com os filhos? Os maiores, já em idade de casamento, e o mais novo, ainda de fraldas.

Como conhecer? Visitar a família na cidade vizinha? Aos domingos, às vezes, à tarde, ia até o sítio ver uma das irmãs. Férias não existiam. O fogão, o tanque de lavar roupa e a mesa de passar consumiam grande parte de seu tempo e de sua energia. Vez por outra, pelo Natal ou por alguma festa religiosa, um membro da família passava para vê-la.

E o tempo foi passando, cansando-a. Conheceu outro lugar por causa de uma mudança que se fez necessária. Não deu para viajar, para realizar seu desejo de conhecimento. Seu sonho de criança, conhecer a Europa, não foi realizado. Quando pôde, não tinha dinheiro nem tempo; quando foi convidada, já não sentia a mesma coragem, ou talvez o medo a impedisse de se aventurar.

Agora, cansada, já não tem a coragem para as aventuras que considera impróprias para sua idade, às vésperas de completar um século de vida.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Atualmente vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 16 livros publicados (seis em francês). Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus. Recebeu os prêmios da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB): Prêmio Romance 2025, pelo livro Mares Agitados: Na periferia dos anos 1970, e Prêmio Biografia 2022, por Maria d’Apparecida: negroluminosa voz.

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