O eleitor brasileiro já tem uma trabalheira danada para escolher seu presidente entre promessas, rejeições e versões cuidadosamente embaladas pelas campanhas. Por isso, merece, pelo menos, saber quem mais está tentando participar dessa escolha, sobretudo quando o interessado tem endereço em Washington, dinheiro público americano e disposição para financiar ações contra instituições brasileiras. A soberania costuma render discursos inflamados nos palanques. Seu valor, entretanto, aparece mesmo quando defendê-la contraria o candidato de estimação.
Segundo documentos obtidos pelo UOL, o Departamento de Estado americano liberou US$ 1 milhão para um programa voltado a combater o que seus formuladores classificam como excesso judicial e censura no Brasil. O alvo institucional é o Supremo Tribunal Federal. Os documentos mencionam o lobby de Eduardo Bolsonaro por sanções contra Alexandre de Moraes, mas não comprovam que ele tenha recebido dinheiro; Eduardo negou o recebimento. A identidade dos beneficiários permanece sob sigilo, conforme a reportagem. É nesse ponto que a cobrança começa: quem recebe, para fazer o quê e com quais instrumentos?
A Polícia Federal arquivou, em 7 de outubro, o pedido da Advocacia-Geral da União sobre possível interferência estrangeira, por falta de indícios mínimos para abrir investigação. Esse dado precisa acompanhar a denúncia. O arquivamento, porém, não dispensa a cobrança pública por transparência sobre o programa americano. Uma coisa é reunir elementos para um inquérito; outra é aceitar que um governo estrangeiro financie iniciativas envolvendo instituições brasileiras sem esclarecer seus destinatários e objetivos.
A apreensão com a Agência Central de Inteligência, a CIA, tem antecedentes que dispensam imaginação. Um memorando da própria agência, disponível no acervo oficial americano, registra financiamento e ações políticas na eleição chilena de 1964. A história autoriza vigilância, mas exige rigor: esse precedente não comprova uma operação na eleição brasileira de 2026. Nas fontes consultadas para este texto, não encontramos evidência que permita fazer essa atribuição. A memória serve para manter os olhos abertos; a acusação precisa de prova.
Também é preciso dar nome correto ao episódio da noite do primeiro turno. Segundo esclarecimento do Tribunal Superior Eleitoral reproduzido pelo UOL, a visualização nacional dos resultados ficou interrompida entre 19h14 e 20h04, durante 50 minutos. O tribunal afirma que a apuração e a totalização continuaram, assim como a atualização dos dados estaduais. A pane alimentou boatos de fraude, desmentidos pela Corte. Cabe cobrar explicação técnica e prevenção de novas falhas, sem transformar uma tela parada em prova de sabotagem.
A responsabilidade de Nunes Marques cresce nesse ambiente. Indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, o presidente do TSE comanda uma Corte cuja atuação enfrenta críticas sobre decisões e prazos de resposta às campanhas. A indicação política merece registro; a imparcialidade deve ser examinada pelos atos. A reportagem do UOL desta terça-feira reúne questionamentos de juristas e relata decisões mais rápidas para Nantes do que para Lula. São fatos e procedimentos que exigem escrutínio, independentemente de quem se beneficie.
O Brasil precisa chegar ao segundo turno com instituições capazes de prestar contas e eleitores capazes de distinguir denúncia, suspeita e evidência. Washington deve explicar seu dinheiro. A Justiça Eleitoral deve explicar suas decisões e suas falhas. E o jornalismo deve cobrar ambos sem emprestar certeza ao que ainda não demonstrou. O eleitor já encontra mãos demais tentando conduzi-lo à cabine. Na hora de apertar a tecla, a escolha precisa continuar sendo dele.
contrapontoMS/UOL
