O governador Eduardo Riedel e o prefeito Marçal Filho firmaram um pacto que tem tudo para conquistar adesão acima das diferenças partidárias: enfrentar a buraqueira em Dourados. O entendimento foi durante uma audiência na sexta-feira, 16, mas só divulgado nesta segunda-feira. Prevê pelo menos 25 quilômetros de recapeamento, com investimentos superiores a R$ 30 milhões e prioridade para ruas dos itinerários do transporte coletivo. É uma parceria política cujo resultado o cidadão poderá conferir sem precisar consultar pesquisa: basta passar pela rua.
Dourados tem muitos motivos para querer crescer, ampliar sua importância econômica e melhorar seus serviços. Não precisa, porém, imitar Campo Grande em tudo. Na disputa por buracos, seria recomendável dispensar a competição antes que alguém resolva instituir um campeonato estadual. A capital acaba de anunciar doze frentes simultâneas de tapa-buracos, uma mobilização que dá a dimensão do trabalho necessário para recuperar suas ruas. Aos douradenses, interessa evitar que o problema alcance tamanho semelhante. Nesse quesito, claro, manter distância da capital seria uma demonstração de progresso.
É preciso isentar Marçal, que não produziu o já famoso queijo suíço em que se transformou o que vai além do quadrilátero central, já recapeado pelos governos Azambuja e Riedel. O prefeito recebeu uma cidade com problemas acumulados, cuja solução exige mais que uma temporada de remendos. Principalmente em tempos como agora, que São Pedro está caprichando no aguaceiro, como o El Niño. Há vias em regiões como a Vila Maxwell, Ouro Verde e adjacências com pavimento deteriorado há mais de vinte anos. A etapa em andamento prevê 12,5 quilômetros de reconstrução, reciclagem e recapeamento, com R$ 17,6 milhões do Estado e contrapartida municipal. O anúncio da continuidade dá perspectiva a um trabalho que precisa avançar para além das intervenções emergenciais.
Quem dirige sabe reconhecer a diferença entre uma rua recuperada e outra mantida sob sucessivas doses de sobrevivência. O tapa-buraco é necessário, sobretudo depois das chuvas, mas chega uma hora em que o remendo também precisa de remendo. A pista vira uma colcha em que cada administração deixa um retalho, enquanto o motorista procura uma costura menos agressiva para atravessar. Recapear com qualidade permite interromper esse ciclo. O dinheiro público rende mais quando a obra dura; o contribuinte agradece duas vezes, inclusive na oficina.
A prioridade para os itinerários dos ônibus também faz sentido. Melhorar essas ruas significa alcançar quem depende diariamente do transporte coletivo, além dos moradores, comerciantes e demais motoristas que utilizam os mesmos trajetos. O benefício não se limita ao conforto dentro do veículo: interessa à segurança e à conservação de toda a frota que circula por ali. É o tipo de escolha que ajuda a transformar uma relação de ruas em política de mobilidade.
A parceria entre Estado e município merece reconhecimento quando consegue sair da fotografia e chegar ao chão. O governador dispõe de capacidade de investimento; o prefeito conhece — e escuta diariamente — as demandas da cidade. Aproximar essas duas pontas é parte do trabalho para o qual foram eleitos. Caberá agora apresentar os trechos, organizar as intervenções e acompanhar a qualidade do serviço, para que a população possa conferir o avanço pelo caminho de casa.
O pacto está anunciado. Que ganhe ritmo, alcance os bairros e resista às próximas chuvas. Dourados pode continuar buscando em Campo Grande investimentos, serviços e boas oportunidades. Quanto aos buracos, convém preservar a autonomia municipal: cada cidade que cuide dos seus, de preferência antes que eles comecem a cuidar do destino dos motoristas.
contrapontoMS, com ASSECOM/PMD
