18/11/2010 – 10:11
Quem não conhece ou já não ouviu falar de uma arapuca erguida ao lado da prefeitura de Dourados, cuja destinação seria de um pavilhão de eventos e, um pecado, batizada com o nome do santo bispo dom Theodardo Leitz? Não bastassem os fortes indícios de corrupção, pelos custos – coisa aí de R$ 1,2 milhão – anunciados à época, não condizentes com o que se apresentou de edificação, o tal “Pavilhão de Eventos” é, ao lado do Douradão (um gigante adormecido, não por coincidência bem próximo dali), um dos maiores elefantes brancos da terra de seu Marcelino. Quer dizer, além de superfaturado, subutilizado.
O tal “pavilhão” é apenas um dos muitos exemplos de obras resultantes das tais emendas parlamentares, razão de ser do brilho nos olhos da maioria dos congressistas (deputados e senadores). Neste caso, pelo menos, houve a entrega da obra, cabendo agora à prefeitura dar-lhe destinação outra que não apenas algumas feirinhas, ditas de empreendedores, com desfiles de moças só de calcinha e sutiã. Pior é quando o dinheiro vem e o gato come. É o caso, pelo jeito, da Praça Antonio João e de outra arapuca cujas obras parecem emperradas, no início da Avenida Guaicurus – o “Centro de Convenções”.
Agora, na semana que vem, quando vence o prazo para a elaboração das emendas parlamentares ao Orçamento da União para 2011, o globo ocular de deputados e senadores começa a girar mais rápido. É uma longa, mas compensatória, espera, até que chegue a hora do êxtase, ou do brilho total dos olhos de suas excelências. É quando acontece a liberação, propriamente dita, da grana pela qual tanto eles trabalham. É a hora, enfim, do já famoso retorno. São R$ 13 milhões de reais para cada um. Que a coisa fique naquela taxinha básica de 10% de comissão. É grana uma barbaridade! Uma suposição, evidentemente, ninguém está dizendo que todo mundo é corrupto.
Exatamente pelo faniquito de deputados e senadores por essas emendas, é que elas são tão questionadas, principalmente pelo que acabam se transformando, num instrumento paroquial e eleitoreiro e, daí, um passo bem curtinho para a corrupção desenfreada, como a que Dourados estampa hoje para o Brasil e o mundo.
Talvez seja o caso de a decantada reforma política reavaliar essa atribuição de deputados e senadores, tirando desses pobres coitados este pesado fardo, que é mexer com dinheiro. Afinal, a carne é fraca. E a tentação muito grande. Que se limitem, suas excelências, a fiscalizar o executivo e a apresentar projetos e leis, boas leis, e que retomem os grandes debates nacionais, deixando ao governo a tarefa de governar, simplesmente.
Outra coisa. Com deputados e senadores se preocupando mais com as questões institucionais e constitucionais e o governo trabalhando mais, despachando seus técnicos e ministros para as bases, quem sabe acabe essa farra de prefeitos e vereadores, em bando, todo dia em Brasília. Se existe a figura representativa do deputado e do senador para cuidar dos interesses de seus estados e municípios, o que prefeitos e, principalmente, vereadores têm que cheirar em Brasília?
Fosse assim, já, certamente não teriam crescido os olhos do Valdecir e dos vereadores que com ele foram em cana. Em vez de trabalhar, ficaram na ponte aérea Campo Grande-Brasília. E lá, como se vê, é onde tudo começa, quando o assunto é corrupção.
