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Medicina preventiva

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03/05/2009 – 18:05

Por mais que me esforce não consigo lembrar o ano que estudava, muito menos a escola, mas o nome da professora ficou indelével em minha memória. Não só pelo didatismo em suas aulas de ciências, como, tempos depois, pelo carão num baile de carnaval no Clube Nipônico, quando, já pra lá de Bagdá, fui partindo pra cima daquela sorridente japonesinha que vinha saçaricando em minha direção. Era a professora Marinise Murakami, que retornava à cidade depois de alguns anos de estudos fora. Em suas aulas de ciências tínhamos noções básicas de higiene, como, por exemplo, não enfiar o dedo no nariz ou nos ouvidos, pois para isso existia o tal do cotonete.

Já adulto, mais ou menos trinta anos atrás, com essa minha mania de hipocondria, conversando com o Stan, proprietário da farmácia Santa Cruz, no centro da cidade, e com o jornalista Luiz Carlos Fernandes de Matos Filho, presenciei uma situação inusitada, de um sujeito acometido por umas perebas que deixavam suas virilhas em carne-viva.  O dito cujo chegou rengueando, por causa daquele incômodo, e foi logo jogando a receita assinada por George Takimoto, indicando o tratamento à base de violeta genciana. Luiz Carlos, pragmático como sempre, intromete-se na conversa com uma sugestão para curar aquele mal pela raiz: “isso aí é fiofó mal lavado; lava direitinho que cura”. Dias depois encontrei o paciente, andando normalmente, todo faceiro com o desaparecimento das perebas, atribuindo o “milagre” mais à “receita” do jornalista do que ao medicamento.

Alguns anos depois, convocado por Zé Elias Moreira para assessorá-lo em Brasília, deslumbrei-me com as maravilhas da cidade concebida por JK e cai na gandaia. Era cachaça e festa todos os dias. De repente uma forte dor de cabeça começa a me infernizar. Vem o diagnóstico médico: um quadro de hipertensão arterial irreversível. Na receita, além dos betabloquedores da moda, uma dieta alimentar radical, sem álcool, com muitos exercícios físicos. Preferi me entupir de remédios a abrir mão da sagrada cervejinha de todos os dias, além de continuar me empanturrando com churrascos, guisados e mexidos. Recentemente, não aguentando mais empurrar a pança, e com a coluna já bastante comprometida pela artrose, fui obrigado a render-me às recomendações de uma nutricionista. Uma maravilha. A barriga está murchando, as taxas sanguíneas todas dentro da normalidade e a hipertensão parece também coisa do passado.

Se alguns metidos a sabichões passam por esse tipo de situação, imagine o pobre coitado que leva a vida comendo o tal pão que o diabo amassou, sonhando com as cestas básicas de governos populistas e pautando seu dia-a-dia apenas pelas informações que chegam pelo rádio, a maioria delas dando conta de tragédias e mais tragédias.

No momento em que governantes finalmente descobrem que a saúde é uma questão suprapartidária e deve ser encarada como prioridade absoluta, com parlamentares se vangloriando pelo tanto de milhões que liberam em Brasília para construir prédios bonitos de hospitais ou pela distribuição de ambulâncias às prefeituras, de olho numa comissãozinha de empresários salafrários, não seria interessante investir mais em educação e na saúde preventiva?

Claro que lá se vão mais de quarenta anos desde que o douradense se limpava (na privada) com papel jornal ou de pão, quando não com sabugo, já que papel higiênico era coisa de luxo, daí as malditas perebas como as “curadas” por Luiz Carlos Matos, mas não custa dar uma olhadinha na grade curricular das escolas públicas para verificar a quantas andam aulas como as da professora Marinise, que ensinava que é feio e anti-higiênico limpar o nariz com o dedo.

Interessante também que, além de se descabelarem na busca de profissionais como neurocirurgiões, os responsáveis pela saúde pública cuidassem também de contratar mais nutricionistas para ensinar a população a comer corretamente, evitando, lá na frente, a superlotação dos hospitais em consequência de doenças como hipertensão e diabetes, provocadas pelos exageros da tradicional comida mato-grossense.

Com a palavra o recém-empossado secretário de saúde, Sandro Barbara, o doutor-deputado, Geraldo Resende e o doutor-governador, André Puccinelli, antes que a saúde dos douradenses se transforme de uma vez por todas em coisa de doido por causa a queda-de-braço que o prefeito Valdecir resolveu disputar com a classe médica.

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