24/07/2009 – 08:07
Isaac Duarte de Barros Jr.
Como de costume um dia destes, levantei-me muito cedo numa quinta feira e em seguida li rapidamente os dois jornais diários da cidade. Na primeira página de um deles, me deparei com a foto e um texto discreto, dando conta que o jornalista Theodorico Luiz Viegas criador do primeiro jornal a circular diariamente em nossa cidade, havia falecido após uma prolongada enfermidade e que seu corpo estava sendo velado na Câmara Municipal.
Querendo prestar as minhas homenagens póstumas ao veterano comunicador, filho de uma família pioneira, fui ao seu funeral. O dia estava muito frio e chuvoso, enquanto eu me deslocava debaixo de uma garoa fina em direção ao lugar estabelecido para as exéquias e últimas homenagens ao primeiro repórter nativo de Dourados. No trajeto vagaroso, os meus pensamentos voaram para o final dos anos sessenta, aos tempos em que o jornal a Folha de Dourados e a sede dos serviços de alto-falantes do Theodorico, funcionavam num prédio hoje demolido, localizado na Avenida Marcelino Pires.
O agora velho repórter falecido era um autodidata nessa época, mas foi daqueles primeiros homens douradenses a militar na comunicação. Alguém e com quem, eu gostava de conversar sobre assuntos diversos no período das férias escolares. Ademais, foi um moço considerado de confiança, encarregado nos anos cinqüenta pelo jornalista Weimar G. Torres, para escrever no seu jornal “o progresso”, qualquer assunto a respeito de acontecimentos fúnebres e os considerados delicados quando se tratava de política. Ainda guardo comigo, um artigo que o Theodorico Viegas, reportou quando meu avô materno faleceu na metade do século vinte.
Ele foi um jornalista sem muitas posses, por isso nunca conseguiu implantar a sua emissora de rádio e tv, embora tivesse ganhado uma concessão para tanto do governo federal. Em sua oficina de serviço ou na redação, trabalhava um inteligente e agitado adolescente, o Valfrido Silva, compondo as notícias ainda no componedor, letrinha por letrinha. O Theodorico, como só ele sabia ser com os colaboradores do seu jornal, certo dia me encarregou de escrever para a Folha de Dourados, um artigo despretensioso a respeito da necessidade de se pintar o prédio da antiga prefeitura. Eu estava pensando num titulo para a matéria, quando o Valfrido sugeriu: “casarão da rua João Rosa Góes”, na hora aprovei a sugestão. O Theodorico, nunca ficou sabendo, o nome do verdadeiro autor do rótulo que virou voga. Aliás, esse rapaz criado na Cabeceira Alegre, foi também o criador da frase: “na grande Dourados…” que inaugurei nos microfones da rádio clube e depois virou uma maneira peculiar quando alguém queria se referir a nossa região. Isto tudo aconteceu, porque o prefeito João Totó Câmara gostou da ênfase referencial.
Olhava ainda aquele corpo morto, quando se achegou perto do caixão o empresário Alkindar Rocha, membro de tradicional família, comerciante em nossa cidade e contemporâneo do falecido. Com seu espírito brincalhão indomável, mais para afastar a tristeza, falamos do mundo na forma por nós conhecido, que estava morrendo com o Theodorico. Concordei com a colocação, ao lembrar dentre outros detalhes, dos lambaris que eu pescava na “mina” da sua antiga serraria. Inclusive do meu primo Harrisson, seu compadre. A quem o Alkindar chamava pelo apelido de “jibóia”. Assim, saí dali disposto escrever, falando a respeito daquele velório do Theodorico Luiz Viegas. Só que este seria um texto, o qual, infelizmente, esse repórter não poderia revisar como adiantei consternado ao jornalista Luiz Henrique, atual diretor do jornal que o falecido fundou…
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