09/11/2009 – 08:11
Para Astholfo e Silvéria
Nos conhecemos no final da década de noventa.
Era um verão em Garopaba, praia onde nos recolhemos sempre que possível, desde que as crianças eram verdadeiramente crianças. Lá não tem prédios altos na orla. Lá, as casas do condomínio em estilo português dão à beira-mar.
Lá, as crianças voltam sozinhas pra casa quando se cansam da areia ou têm dor de barriga. Lá, conhecemos o general numa tarde ensolarada, em tempo de férias.
Eu estava na cozinha. Porta do sobrado escancarada.
Mara, a irmã dela, Lisete, Carlão, meu cunhado e as crianças jogavam conversa fora, na frente da casa, ao barulho do mar.
Um casal de velhinhos elegantes se aproximou. Eram o Marius e a Eli. Perguntaram se conhecíamos um outro casal de velhinhos que se hospedava por ali. Sim, sobre nós, no andar de cima, havia um casal de velhinhos, elegantes e discretos. São o Astholfo e a Silvéria. Somos velhos amigos. Ele, general de cavalaria. Eu reformei como coronel, disse o Marius.
Contaram que vinham de Florianópolis. De carro. Nos assustamos. De carro? Sim. Estávamos caminhando, passamos em frente a uma locadora de veículos. Resolvemos entrar e saber o que era preciso para alugar um. Cumpríamos todos os requisitos necessários. Alugamos um e viemos ver nossos amigos.
Os 82 quilômetros que separam Florianópolis de Garopaba são muito perigosos para qualquer motorista. Imagine para eles! Mas se chegaram até ali, tinham habilidade e controle. Aliás, tinham disposição por viver e isso era visível, nas roupas (modernas e coloridas), nas falas, no sorriso e na energia que se espalhava com a presença deles.
Marius agradeceu a informação e a rápida conversa e disse que precisava ir ao encontro do amigo – ele é metódico, marcamos às quatro e não devemos atrasar. Já se levantava para sair. Naquele momento, apontei da cozinha com uma garrafa de café. A Eli perguntou se podia tomar um gole – não sei se lá no general vai ter café, melhor me garantir por aqui, explicou.
A nossa tarde ganhou mais sentido. Foram mais alguns minutos de café e de boa conversa. Descobrimos que eles voltavam da Europa, um passeio feito com mochilas nas costas e noites dormidas em albergues da juventude. Os jovens nos compreendem melhor, são mais bem resolvidos e nos respeitam, diziam os dois. A cada nova fala uma descoberta.
Eli pergunta – vocês têm filhos artistas? Em uníssono eu e Mara respondemos: Sim, nossos filhos são verdadeiros artistas, os dois. Gabriel e Mariana aprontam cada arte que vocês não imaginam. Ela diz que eles também têm uma filha artista. E revela com o orgulhosa que são os pais da Suzana Vieira, a conhecida atriz de novelas. Marius decreta o fim do atraso com o general. Agradece a acolhida, sobem as escadas e vão ao encontro dos amigos. Ficamos impressionados com a alegria, com a vitalidade, com a modernidade dos dois. Quem dera, envelhecer assim.
Mais tarde, caminhando com Mara pelo condomínio, cruzamos de novo com a Eli. Vinha de braços dados com uma dessas senhoras distintas, que parecem ter saído de filmes franceses. É ela quem interrompe a nossa caminhada. Vocês é que são de Campo Grande? Sim, senhora. E são jornalistas? Sim, senhora. Então, devem conhecer uma jornalista chamada Margarida Marques? Não só a conhecemos. Ela é a madrinha da Mariana. È uma pessoa muito importante pra nós. Pois, eu sou a Silvéria, irmã da Joaquina, mãe da Margarida. Mundo pequeno, de uma hora para outra, éramos íntimos. Assim, numa tarde solta de verão em Garopaba, conhecemos o Marius e a Eli; o Astholfo e a Silvéria.
Daquelas férias me lembro como cresceu a amizade entre nós. Primeiro fizemos um chá da tarde. E eles vieram até nós. Pontualmente eles chegaram. Apreciaram o chá e as comidinhas que preparamos. Pontualmente foram embora. Depois, nos devolveram a gentileza. Ficamos realmente amigos.
Eu acordava cedo para as minhas corridas na praia. Seis da manhã. O sol morninho. Passei a encontrar Silvéria e Astholfo em sua caminhada. Eram três quilômetros de enseada que eu fazia correndo, ida e volta, enquanto eles caminhavam. Invariavelmente, na minha volta, o general me interrompia: Seu Maranhão, como está a água hoje? Não sei, general, mas vou saber agora. Eu mergulhava na água fria de Garopaba e respondia para ele: está perfeita General. Era o sinal. Ele se despedia da Silvéria, que continuava a sua caminhada pela areia enquanto ele cumpria o resto do percurso à nado. Isso faz pelo menos dez anos. À época, ele tinha 90 e ela 87.
Nos anos seguintes, nos encontramos muitas vezes. Era praticamente um encontro por verão. Fora da temporada, nos encontrávamos em longos telefonemas. Dividíamos a alegria com eles. E falávamos da vida. A nossa, ainda por acontecer. A deles, na reta final, sem dar demonstrações de que poderia acabar, a não ser pelos cabelos grisalhos e pela fragilidade imposta pelo tempo, aos corpos.
Astholfo era surdo. Usava aparelhos. Em seu caminhar, guardava a elegância de um cavalo árabe em desfile de exibição. Tinha uma memória impagável. Lembrava de detalhes do início do século, descrevia encontros e situações em relatos surpreendentes. Contou do romance dele com Silvéria, como começou, os sacrifícios que fizeram para ficar juntos, sempre sob o olhar apaixonado dela. Eram companheiros legítimos.
Ontem, ficamos sabendo que o nosso amigo general Astholfo morreu na quinta-feira, à beira dos cem anos. Silvéria está no hospital, recupera-se de um longo período de convalescência. Mas está bem. Ele enfrentou um câncer de próstata que se alastrou e lhe impôs o fim à jornada. Sem perder a elegância.
Margarida me contou que, meses atrás, às vésperas de receber o diagnóstico de câncer de próstata ele, já fazendo uma série de exames, revelou ao médico que estava preocupado com a possibilidade de ser mesmo um câncer o que lhe incomodava a vida. O médico o acalmou, mas ele insistiu: Doutor é comum, na minha idade, os homens terem câncer de próstata? O médico não resistiu à piada. Não, general. É muito raro, porque poucos homens chegam à sua idade.
O general foi cremado na sexta-feira à tarde.
Eles não estarão conosco no próximo verão. Mas guardamos com carinho a imagem dele vivo, em nosso último encontro, em outubro do ano passado. Eu e Mara estávamos em Porto Alegre, onde eles moravam e fizemos contato. Eles nos convidaram para um almoço no Bistrô. Ao meio dia em ponto quando chegamos à porta do restaurante, estava o Astholfo vigiando uma das raras vagas para estacionamento. Com a altivez de um general impedia que qualquer um que não fôssemos nós estacionasse ali.
Entramos no restaurante com a informação dada por ele sem margem para contestação: O seu dinheiro não é aceito aqui. Vocês são nossos convidados. Silvéria estava linda, com um vestido delicado, cabelos reluzentes, muito bem maquiada e cheirosa como sempre. Foi um almoço delicioso. Ele pediu que escolhêssemos um vinho. Tomamos um Finca La linda de boa safra. Falamos da vida, dos nossos encontros, dos deles. E fizemos planos de novos vinhos, novos encontros. Antes do almoço terminar, eles nos fizeram um outro convite: Por que não fazemos uma viagem ao Chile, juntos? Lá há belos lugares e vinhos deliciosos. O que acham? Os olhinhos da Silvéria brilhavam. Aceitamos na hora. Não havia outra resposta possível.
Hoje, vou a uma adega comprar um Finca La linda.
Por eles. Por nós. Pela Vida.
Inorbel Maranhão Viegas
