30/03/2010 – 07:03
Wilson Valentim Biasotto *
Lá se vão 46 anos desde 1964. Ao realizarmos a Copa de 2014, completaremos meio século da deposição de João Goulart e da tomada do Poder pelos militares brasileiros. Faltam, portanto, apenas quatro anos para a passagem do cinquentenário do início da Ditadura que se estendeu de 1964 a 1985, com duração de 21 anos.
Por outro lado, como tudo passa e passará, lá se vão também 24 anos, quase cinco lustros, desde que demos início à redemocratização de nosso país.
Em fase da aproximação do 31 de março, data do golpe, pus-me a refletir sobre o tema e aproveitei o ensejo para ler os dois primeiros volumes da obra do consagrado colunista da Folha de São Paulo, Elio Gaspari, editados pela Companhia das Letras em 2002 e que repousavam desde 2003 na minha estante de livros não lidos. Os dois volumes perfazem um total de 924 páginas, sendo que o primeiro, “A Revolução Envergonhada”, tem 417 e o segundo, “A Revolução Escancarada”, 507.
Dessa grandiosidade de páginas escritas, é raríssimo escapar uma sem alguma citação de fonte primária ou de bibliografia especializada, o que dá à obra além de densidade, confiabilidade, pelo rigor metodológico observado pelo autor.
Isso posto, além de recomendar a obra e comungar com a convicção do autor de que não obstante o “milagre brasileiro” ocorrido nesse tempo, “a tortura e a coerção política dominaram o período” (especialmente entre1969-74), desejo afirmar aos leitores a minha firme convicção de que nos cabe – a nós que éramos jovens em 1964 – a responsabilidade de anunciar às novas gerações os horrores ocorridos nesse período, sem qualquer ressentimento de quem foi perseguido, mas com o objetivo maior de celebrarmos a paz, a democracia, a fraternidade. Essa responsabilidade cabe também aos professores, e a todos os amantes da liberdade de expressão, que devem orientar os mais jovens para a cidadania, sabendo-se que cidadania não combina com ditadura.
Não há mais o que punir, mas é preciso que a Pátria saiba onde estão os seus filhos desaparecidos. Não há mais revanche, mas a história existe para não esquecer, para não silenciar. Nos porões da ditadura, homens e mulheres foram torturados de maneira cruel e infame. E não tem como negar, basta abrir o livro citado na p. 136 e ver a declaração de um coronel: “Nós torturamos para não fuzilar”. Ora, isso lembra a indecência de Maluf com a sua repugnante afirmação do “estupra, mas não mata”.
Meio século é tempo suficiente para a cicatrização das feridas e para o perdão, mas é tempo também para a reflexão. O perdão implica em reconciliação e somente haverá reconciliação se as partes reconhecerem os seus excessos para não repeti-los jamais.
Os opositores ao Regime Militar tinham também ações pouco ortodoxas em se tratando de guerra, a mais hilária e pouco conhecida, foi quando um grupo tomou de assalto a casa do filho de uma amante de Ademar de Barros e, numa ação relâmpago, surrupiou um cofre que lá se encontrava bem escondido. Para encurtar a história, narrada com detalhes por Gaspari, o cofre foi arrombado e encontrada a bagatela de 2 milhões e 600 mil dólares. Foi um espanto!
Acabou-se a Ditadura, passou, como de fato tudo passa nesse mundo. O que precisa ficar claro, líquido e certo é que, havendo guerra ou “revolução guerreada”, ou seja, havendo enfrentamento entre duas forças antagônicas armadas, os combatentes mortos não são considerados assassinados, são “mortos de guerra” simplesmente, podendo virar heróis. Havendo prisioneiros nessas refregas devem ser considerados “prisioneiros de guerra” e, por via de consequência, tratados de acordo com a Convenção de Genebra.
O que não pode se repetir em hipótese alguma é a tortura, a coerção política, a emboscada traiçoeira o estupro e o assassinato de prisioneiros.
Temos que avançar ainda mais em civilidade tanto no Brasil como em todo o Mundo para que o ser humano seja tratado com dignidade e para que possamos todos juntos, civis e militares, fazer do século 21 o século da paz.
Seus comentários são bem vindos: biasotto@biasotto.com.br
- Membro da Academia Douradense de Letras; aposentou-se como professor titular pelo CEUD/UFMS, onde, além do magistério e desenvolvimento de projetos de pesquisas, ocupou cargos de chefia e direção.
