15/02/2009 – 18:02
Num tempo em que as diversões da molecada se resumiam às matinês do cine Ouro Verde ou aos amassos nas meninas nas tardes de domingo, na Praça Mario Corrêa, a zona do baixo meretrício – a Coréia – era a válvula de escape dos mais crescidinhos, no caso de algum programa mais “caliente”, até porque não havia motéis na cidade. Mesmo sendo um bairro proibido para menores, sempre encontrávamos um jeito de dar uma bisbilhotada por lá, desde que de olho no jipinho da polícia, principalmente quando dirigido pelo temido cabo Otávio. Era ele apontar numa esquina para que nos escafedêssemos pelas macegas, às vezes até deixando nossas “magrelas” para trás.
Em artigo aqui publicado já há algum tempo, um dos selecionados para a coletânea do meu livro “Sonhos e Pesadelos”, recordei alguns endereços famosos daquele que era o paraíso para o ritual de iniciação da gurizada ou para as festas de despedida de solteiros. Lembro-me muito bem de dois desses rituais: o do primeiro desfrute de um colega muito tímido, da Folha de Dourados e, mais tarde, já na fase de decadência do bairro como área de exploração do comércio sexual, quando “seqüestramos” um amigo após sua cerimônia de casamento, na Catedral Imaculada Conceição, porque ele havia nos negado a festa de despedida de solteiro. Claro que se guardou para a esposa, mas não sem antes assistir a um showzinho muito peculiar e pagar a conta, na Casa da Angélica, uma das mais famosas daquele reduto.
Como isso tudo coincidia com o inicio da lida jornalística, vivia encasquetado com o nome do bairro: por que Coréia? Por mais que tentasse alguma explicação nas aulas de história com o professor Chester ou nas de geografia, de Laerte Tetila, jamais encontrei alguma relação entre as atividades das freqüentadoras das tais casas de tolerância, evidentemente conhecidas como coreanas, com os costumes do pequeno país asiático espremido entre a China e o Japão.
Só agora, nesta última sexta-feira 13, é que descobri o porquê do tão pouco sugestivo nome de nossa antiga ZBM, e tudo graças ao trabalho de outro habitué do local, o conceituado jurista, jornalista e poeta Isaac de Barros, que gostava de se inspirar nas dançarinas paraguaias de tia Guilhermina para suas noites de serenatas. Segundo Isaac, a descoberta se deu quando vasculhava seus alfarrábios em busca de subsídios para uma palestra que fará na Unigran no início de março. Ele conta que em 1951, seu colega, também jurista, jornalista e igualmente poeta Weimar Torres atuava como advogado de defesa de um sujeito que ali havia praticado um crime. Ao conceder um aparte ao recém-nomeado promotor Ayrthon Ferreira Barbosa, o fundador de O Progresso saiu-se com essa: “A zona é um lugar onde só impera a confusão, com brigas e tiroteios todos os dias, mais se parecendo com a Coréia”. A referência aos conflitos que acabaram provocando a divisão da terra do reverendo Moon em dois países, por causa da disputa imperialista entre os Estados Unidos e a União Soviética, após a segunda guerra mundial, foi o suficiente para colar o nome no bairro também sempre às voltas com tiroteios, principalmente quando algum amante mais apaixonado exagerava na canjebrina e resolvia furar o teto dos salões de baile à bala.
Esclarecida a questão da Coréia, passa-me a encafifar, agora, o também pouco sugestivo apelido que estão querendo colar em Dourados: Arizona! Por mais que me esforce, não consigo vislumbrar semelhança entre nossas terras férteis, onde o regime de chuva é regular, com o árido e montanhoso Estado do mesmo nome no sudoeste dos Estados Unidos. Será um sinal dos tempos?
