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A ortografia e a hipocondria

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24/02/2009 – 08:02

Para quem gosta de amenidades, numa terça-feira de carnaval, vai meu artigo publicado na edição de ontem de O Progresso:

As novas regras ortográficas para a unificação da escrita nos países de língua portuguesa e a necessidade de perder peso, por causa de terríveis dores na coluna, ao mesmo tempo em que me atormentam, neste início de ano, remetem-me aos anos dourados da iniciação nesta lida. É que naquela época já vivíamos às voltas com esse tira-e-põe de acentos, ali começando também minha curiosidade quanto aos perigos da automedicação, embora, até hoje, vira-e-mexe, busque novidades nas prateleiras das farmácias e até sugira algumas delas a algum companheiro de copo.

Contratado (por engano) como faxineiro, na Folha de Dourados, tive de aguardar pacientemente o desempenho dos aprovados num teste para repórter, até que surgisse minha chance. Clayton Sergio de Freitas entrou como repórter de polícia e geral e Neuza, cujo sobrenome agora me foge, como colunista social. Sem muita queda para as letras, a não ser aquelas que manuseávamos ali nas caixas de composição, Serginho acabou aproveitado na oficina, antes de sair do jornal para virar bancário; Neuza não aguentou na ribalta, sendo demitida por causa de uma polêmica quanto a regras de acentuação gráfica.

No dia dessa confusão cheguei ao jornal depois do almoço e encontrei Serginho de Freitas vasculhando debaixo dos cavaletes das caixas de composição. Quis saber o que procurava, e ele me surpreendeu: estou atrás da bunda da Neusa! E antes que tentasse entender, em tom sarcástico, foi logo explicando: o Theodorico brigou com ela por causa de um acento que ela afirma ter caído, mas ele disse que o que caiu foi a bunda dela. Ao levar ao pé da letra o sentido do verbo cair, mal sabia aquele tipógrafo, que se achava dos mais espertos, que Theodorico, este, sim, um homem experiente e contumaz apreciador das formas femininas, estava apenas desqualificando o que aquela morena descendente de índios tinha de mais exuberante em sua anatomia.

Fiquei também com cara de bobo na primeira oportunidade que tive de, como aspirante a repórter, mostrar meus conhecimentos sobre o vernáculo, ao repetir seguidamente o que seria a forma pejorativa de se pronunciar, no aumentativo, o nome da letra “T”, diante de um questionamento do não menos sarcástico chefe de oficina Luiz Carlos Rocha.

Além dessas lições compulsórias sobre gramática tínhamos, também, graças a esse clima de cordialidade que imperava na Folha, aulas de conhecimentos gerais, e aí começando meu interesse pelas novidades farmacológicas. Muito mais que um hipocondríaco inveterado, como acusa o colega jornalista Cícero Faria, trata-se de um trauma, tamanho o mico que paguei numa de minhas primeiras missões como Office-boy no jornal. Sem poder imaginar que Theodorico pudesse estar acometido por algum problema de saúde, mas deduzindo que seu Fordinho “pé-de-bode” estivesse com algum problema mecânico, já que nem na manivela dava partida, saí em desabalada Marcelino Pires à baixo quando me mandou pegar um “Tetrex” no Ferro Velho. Depois de fortes pedaladas fui parar na oficina de ferro velho de Renato Lemes Soares, na divisa do centro da cidade com a Cabeceira Alegre, onde, esbaforido, fiz o pedido ao irmão mais novo de “Ferrinho”, o Renatinho Lemes. Embasbacado com minha ignorância, ante a insistência de que fora mandado até ali em busca do que, na realidade, era um medicamento e depois de dizer que Theodorico só poderia estar me gozando, sugeriu-me pegar a mesma Marcelino, de volta, até a Farmácia Popular, cujo farmacêutico, Ramão Moacir da Fonseca, era conhecido (menos por mim) como Ferro Velho.

Como, pelas novas regras ortográficas, só mesmo o trema foi abolido, ainda assim valendo para nomes próprios, o negócio é ir colocando direitinho os pingos nos is, para não contrariar mestre Aurélio. Quanto ao velho e eficiente remedinho para blenorragia, o melhor é prevenir, encapando o bicho com camisinha. Camisinha dessas compradas em farmácia, bem entendido.

 

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