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A tecnologia que vicia

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23/03/2009 – 09:03

Ao transcrever aqui meu artigo publicado hoje em O Progresso, aproveito para deixar mais claro o texto truncado justamente no final do parágrafo em que comento a respeito das novas regras ortográficas. Isso é que é morder a língua! Só pode ser praga do Russo. Aliás, o leitor mais atento poderá perceber, sempre, pequenas alterações e correções nos textos do blog. E esta é uma das gandes vantagens da imprensa online:

Dia desses fiz uma comprinha básica na padaria, não me recordo se pão francês e leite ou pão e mortadela, o que sei é que os preços dos produtos coincidiram: coisa aí de R$ 1,30 cada item. Ao chegar ao caixa, com o papelzinho na mão, a atendente vai logo puxando sua calculadora. Depois da soma, percebendo minha cara de censura diante de seu comodismo em não se arriscar “de cabeça” numa operação tão simples, constrangida, limitou-se a acrescentar: “nem precisava somar”.

Quando começo escrever este artigo, acometido de uma insônia que havia tempo não me incomodava, quase desisto, pois ao ligar o computador percebo que a internet está fora do ar. Como vou consultar minhas fontes virtuais? E, antes disso, como iniciar uma jornada diante da telinha, em plena madrugada, sem antes dar uma bisbilhotada na caixa de mensagens do blog, para ver a repercussão do último texto postado? Ainda mais hoje, depois de ter assistido no Jornal Nacional que a Academia Brasileira de Letras acaba de mandar para as bancas um dicionário contendo as novas regras ortográficas. Será que para alívio de recalcitrantes escrevinhadores, como eu, o bicho já está online?

Bem, agora que já começo o terceiro parágrafo, o negócio é romper o breu da madrugada com o farolete da experiência, aproveitando o silêncio das saracuras às margens do Laranja Doce, torcendo pela chegada da aurora que vem logo ali, marcando o início do outono. Pelo menos o corretor ortográfico está arquivado em meu PC e até aqui o Laquicho vai bem, como diria o meu parente Liberato Leite de Farias, cujas estórias foram perenizadas graças à pesquisa do professor, doutor e ex-futuro prefeito Wilson Biasotto.

Até aí na linha de cima já são 286 palavras – 1.421caracteres, sem espaço; 1.712 com eles. Se fosse para a página 2 da Folha de S. Paulo já estava na hora de arrumar um fechamento para a história mas aqui o editor Vander Verão recomenda uma esticadinha, logo ele que lá atrás me apelidou de “Linguiça”, pela dificuldade que tinha em lidar com as longas tripas que meus textos formavam, aqui mesmo em O Progresso. Naquela época, sem essas maravilhas da tecnologia, as coisas eram assim, no chutômetro. Nem mesmo as laudas com as marcações para edição, com número de linhas, que balizavam os textos jornalísticos mundo afora haviam chegado por aqui.

Estou acabando de escrever e nada de internet! Pretendia fazer uma pesquisazinha para enfeitar o texto, caprichando para não dar tanto trabalho aos revisores, que também devem estar às voltas com as novas regras ortográficas. Mas fazer o quê? Pelo que escrevi, até aqui, parece que nada se encaixa dentro do que foi modificado. Só o trema da linguiça, que caiu, mas isto é canja. Nem critiquei nenhum puxa-saco! É que da última vez que abordei a questão do puxa-saquismo, no blog, o repórter policial Waldemar Russo foi acometido por uma dúvida atroz, querendo saber se este hífen também havia caído. Eterno contestador, pelo menos neste ponto o Russo concordou comigo: pior que errar por causa de um hífen, que, neste caso, continua, é o papel desempenhado por essas tristes figuras, não importa em que escalão ou nível de negócio estejam metidas.

Moral da história: essa tal de tecnologia transforma até jurássicos da imprensa, como este que vos escreve, em verdadeiros escravos de titio Google e toda sobrinhada. Escravo, bem entendido, apenas para consultas, não para abusar das teclas Ctrl C/Ctrl V, a mais nova, mais cômoda e igualmente condenável forma de plágio de textos e de idéias. Neste caso, melhor continuar sendo escravo apenas da maquininha de calcular, como a folgada moça da padaria.

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