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Ainda o troca-troca partidário

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29/03/2009 – 20:03

Com a experiência de quem burlou as rígidas normas de segurança do governo militar embarcando num teco-teco para bater lá do outro lado do Globo e conferir in loco os resultados da revolução do proletariado na então União Soviética, o jornalista Clóvis de Oliveira insiste desde o último dia 12 com um texto em seu blog perguntando pra que servem os partidos políticos. O questionamento é a propósito da absolvição de Geraldo Resende pelo TSE, depois que o deputado douradense trocou o PPS pelo PMDB, para, assim, sem maiores constrangimentos, poder apoiar o popularíssimo governo do presidente Lula da Silva no Congresso Nacional.

Além de registrar a defesa que o ex-ministro Ciro Gomes – também useiro e vezeiro do troca-troca partidário – fez de Resende, Clóvis lembra que “curiosamente o processo contra Geraldo, que ficou engavetado por quase três anos, só andou depois que o PMDB, um dia o maior partido da defesa da democracia, chegou ao poder na Câmara e no Senado, com as bênçãos do PT, melhor dizendo, do presidente Lula”. E, irônico, acrescenta que se o maridão da bela Patrícia Pilar um dia decidir voltar a disputar a Presidência da República não precisará mais se preocupar com filiação partidária, pois ali tratou de excomungar a importância de um partido político na vida democrática brasileira.

Certamente que ao defender seu colega deputado e contemporâneo de faculdade no Ceará Ciro Gomes pensou, sim, na possibilidade de um dia voltar a disputar o Planalto sabendo que poderá ter como retribuição o apoio do amigo, que não teria maiores dificuldades em migrar para sua legenda, seja lá qual for o perfil ideológico dela. Aliás, quando a bancada do PPS na Câmara Federal, por unanimidade de votos, pediu o retorno de Resende já era uma estratégia, não só para evitar a cassação, mas, principalmente, para assegurar o terceiro mandato, o que seria difícil num partido maior, como o PMDB.

Como se vê, Clóvis de Oliveira nem precisava ter colocado uma interrogação no título de seu artigo, pois o corpo do texto é mais que afirmativo. Os partidos políticos servem para isso aí mesmo, para conchavos, para eleger os mais pragmáticos e, depois, para barganhar com quem está no poder. E que se dane esse negócio de cartilha programática ou essa bobagem de fidelidade partidária.

Geraldo Resende é apenas um caso de infidelidade, o que deu mais ibope porque a troca de partido aconteceu num momento em que TSE tentava moralizar a coisa, uma perda de tempo, aliás, uma vez que o Congresso já tinha na gaveta mais um daqueles casuísmos para salvar seus membros infiéis. O troca-troca veio, pois, pra ficar. Quem não se lembra, por exemplo, de um engenheiro gorducho, de cabelos grisalhos, que retornou ao Estado natal, depois de muitos anos, com a ideia fixa de ser governador, pelo PSDB? Sem conseguir legenda, o que fez ele? Pulou para o PT e virou senador! E o guasca caminhoneiro? Nem bem havia esquentado o banco aqui por essas bandas, virou vereador, depois deputado, aí trocando de partido, para mais um mandato, e, por último, para se eleger prefeito de Dourados, trocou de partido, de novo!

Para quem costuma ler só as primeiras linhas desses artigos, Clóvis de Oliveira pode ter passado a impressão de estar acometido por algum surto nostálgico ao questionar a serventia dos partidos políticos no Brasil, já que quando de sua estada na Rússia ainda vigorava o regime totalitário. Mas quem vai até o fim do texto se dá conta da indignação do jornalista que precisou de muitas reflexões diante do corpo embalsamado de Vladimir Lênin, no mausoléu na Praça Vermelha e sentir de perto os anseios dos filhos da famosa rua Arbat, em Moscou, para, numa antevisão da Glasnost, de Mikhail Gorbachev, chegar à conclusão, como liberal convicto que é hoje, de que a democracia é o melhor caminho, mesmo com todo esse amontoado de partidos, desde que não se exagere nesse negócio de troca-troca. Afinal, como ele mesmo escreve, para encerrar sua análise, “se partido não serve mesmo pra nada, viva Sarney, Lula, Collor, Temer, e claro, Ciro e Geraldo Resende, que acabaram de criar o maior precedente para que nenhum político seja mais punido, a não ser pelo povo”.

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