19/04/2009 – 19:04
De tanto que sonho com meu amigo de fé, meu irmão camarada, Harrison de Figueiredo, às vezes fico encasquetado achando que ele não morreu, que apenas foi ali fazer um passeio e vira e mexe está a me visitar. Até porque o sonho mais recorrente é de sua teimosia em se manter vivinho da silva, mesmo sofrendo por seu corpo agora circular por aí apenas como um invólucro, livre do espírito ou da alma, coisas que, aliás, ele sempre duvidou possuir.
Não sei se sugestionado por uma história contada na véspera pelo jornalista Nicanor Coelho sobre uma tal guerra da Curuca, que teria ocorrido na Colônia Federal de Dourados na década de 1950, meu último sonho, durante a sesta de quinta-feira, dava conta de um telefonema de Harrison ao amigo comum Elzio Russul Vieira, com quem cruzei na “Pedra” com um papelzinho na mão, dizendo que o falecido tinha um recado urgente. Antes mesmo de perguntar como fazer para me comunicar com o além, toca meu celular. É o próprio, que vem logo me dando uma bronca: “Oh paraguai, nem bem saí daí e você já está de conchavo com esse gauchinho que nos tomou o PDT?”. Por “gauchinho”, entenda-se deputado Ary Rigo, atual presidente do partido pelo qual Harrison tinha tanta devoção. “Mas o negócio é sério, anote direitinho o que vou te dizer para depois não escrever bobagem”, recomendou-me, com sua eterna mania de ditar os textos de suas entrevistas. E continuou: “Já liguei para o Elton (promotor público, filho de outro amigo comum, o também promotor aposentado, Ari Fonseca) e fiz a denúncia”.
Como as situações em sonho são sempre meio confusas e a ligação caia a todo instante não consegui entender se ele havia reencarnado em algum militar cubano e descoberto um antigo campo de concentração na periferia de Dourados ou se a denúncia lhe fora feita por Che Guevara, já que repetia insistentemente a palavra comandante. Como era assim que ele se referia a seu ídolo maior, pode ser que tenha se encontrado sabe-se lá onde com Guevara e este lhe tenha dado os detalhes do combate que teria deixado cerca de oitenta mortos num dos travessões de nossa colônia, segundo o relato de Nicanor Coelho.
Pelas informações de Harrison, houve um grande massacre, só de jovens, e os corpos estariam enterrados em valas comuns num local da periferia da cidade que ele não conseguia explicar direito, mas sugerindo que começássemos as investigações pela região do Cachoeirinha, não por coincidência, o bairro mais próximo da “Pedreira”, o local preferido para a desova de cadáveres.
Outra provável explicação para o sonho é que este reencontro com Figueiredo aconteceu no dia do aniversário (16 de abril) de seu grande amigo e companheiro de cárcere nos tempos da ditadura, João Totó Câmara, junto com quem acompanhei seus últimos dias de vida. Enquanto Harrison agonizava, naquele início de 2005 – e foram longos dias de uma triste vigília – Totó aproveitou para repassar boa parte do que estava ao seu alcance da história de Dourados e, em cima disso, alertando para um longo período de trevas que a cidade corria o risco de adentrar caso, como se diz em “Caminhos das Índias”, não se acendessem as lamparinas do juízo de nossos representantes políticos.
Apesar da gravidade da denúncia de Harrison de Figueiredo que, como advogado criminalista ou dirigente da OAB, sempre empunhou a bandeira dos direitos humanos, meu sonho pode não ter passado de um daqueles pesadelos de quem se empanturra na hora do almoço e em seguida entra numa horizontal, ficando a apreensão quanto ao vaticínio de João da Câmara, do alto de sua experiência como o último dos douradenses a ocupar a cadeira que nos próximos 1.351 dias deve continuar ocupada pelo Valdecir.
