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domingo, maio 10, 2026

O teto de Lula e Haddad, para agradar a gregos e troianos

Longe de ideal ou necessário, plano pode convencer BC, dinheiro grosso, PT e Congresso

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Luiz Inácio Lula da Silva é “ótimo/bom” para 38%, conta o Datafolha. Dadas as circunstâncias, é um resultado favorável. Lula também acaba de divulgar uma prévia do seu teto de gastos, o “arcabouço fiscal”. Ainda tem buracos, é preciso cobrar mais imposto para a coisa funcionar, e a restrição de despesa é frouxa. Mas o plano Lula-Haddad tira a perspectiva de desastre do caminho.

Ainda que não seja nem de longe o melhor plano, pode fazer a mágica de satisfazer, ao mesmo tempo, Banco Central, negociantes de dinheiro grosso, credores do governo, Congresso, PT etc. Vai ser uma satisfação medíocre, se funcionar. Mas é alguma coisa.

Na semana que vem, o governo deve apresentar a revisão de leis de investimento em água e esgoto, conhecido no jargão como “marco do saneamento”. PT e companhia detestam o “marco”, que também é um plano moderado de privatização.

Temia-se que Lula 3 dinamitasse esse “marco”, que vai facilitar mais investimento no setor, ainda que tenha mesmo pontos cegos (falta de garantia para pobres e cafundós). Ao menos pelo rumor, pode até haver melhorias na legislação, embora o petismo tente dar um jeito de estender a vida de estatais que, em geral, não funcionam.

O que se quer dizer, em resumo? Que Lula pode virar o jogo econômico, que ficou complicado depois de vários gols contra do presidente.

De mais urgente, é preciso arrumar e cimentar o “arcabouço fiscal” de Fernando Haddad. Mesmo arrumado, não será o “melhor possível” (que, por sua vez, está longe do “necessário”).
Um bom plano fiscal daria uma perspectiva mais firme de que a situação de gasto e dívida será adequada na próxima meia década, no mínimo do mínimo. Com essa perspectiva, taxas de juros cairiam mais e mais rapidamente.

O teto de Lula 3 não é assim. Mas pode funcionar.

O plano não é assim porque autoriza um ritmo grande de aumento de gasto real e joga para futuro incerto o início da queda da dívida pública; porque o superávit depende de boa vontade do governo.


Além do mais, para funcionar, o plano depende ainda de um aumento de receita bem além do aumento “normal” de arrecadação. Por “normal” aqui entenda-se receita que cresça no ritmo do crescimento do PIB.

Mesmo com esse aumento “normal” de receita, Lula e Haddad vão precisar arrumar pelo menos R$ 150 bilhões de impostos extras (um aumento de 8% da arrecadação).

Como o plano prevê aumento de gastos (e, pois, de emendas) desde que haja receita, fica menos difícil de levar o Congresso a aumentar impostos, apesar do lobby de ricos e malandros. Um aumento errado de imposto pode ser até recessivo, porém.

É verdade que o governo pode contar com alguma sorte. Na prática, a arrecadação aumenta mais do que o PIB em anos de crescimento econômico e encolhe mais do que a economia em anos ruins, de recessão.
Um risco importante do plano é o que será feito do aumento extraordinário de arrecadação. Isto é, daquele dinheiro que entra no tempo das vacas gordas e desaparece em seguida.

Se a despesa aumenta no mesmo ritmo dessa receita temporária, fica difícil pagar as contas quando a bonança acaba (ou se desperdiça chance de abater dívida). Não raro, dá besteira.

O plano Lula-Haddad tem um limitador de alta de gasto (em tese, 2,5% ao ano), o que limita a farra com receitas extraordinárias. A ver se é isso mesmo.

Há problemas fora do “arcabouço”. As vinculações de gasto em saúde e educação vão fazer com que essas despesas cresçam relativamente mais (podem tirar o lugar de investimento, ciência, segurança etc.). Conviria mexer nisso.

Outro risco é o governo jogar receita fora. Lula quer cobrar menos IR de pessoa física. As estatais querem pagar menos dividendos. Assim, não vai dar.

Vinicius Torres Freire Jornalista, foi secretário de Redação da Folha de S. Paulo. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).

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