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terça-feira, janeiro 27, 2026

O punhal verde-amarelo dos golpistas e o telhado de minha sogra

Entre espasmos autoritários, fugas grotescas e sonhos modestos, um ensaio sobre dignidade, dinheiro público e o que realmente sustenta uma casa — e um país

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Lá se foi 2025, o ano das convulsões bolsonaristas, em que a terra tremeu não por força da natureza, mas por espasmos autoritários. Um ano em que o Brasil testou novamente a resistência de suas vigas institucionais — e não ruiu. Sobreviveu porque, apesar do barulho, ainda havia quem segurasse o telhado enquanto outros, que tiveram o caradurismo de se autointitularem patriotas, tentavam arrancá-lo aos gritos, pontapés e pauladas.

Foi também o ano em que mais um ex-presidente da República conheceu o caminho do xilindró, agora acompanhado de seus generais e coronéis que juravam defender a Constituição enquanto conspiravam contra ela. A caravana da Justiça passava, e os cães ladravam. Ladravam nos corredores do Congresso Nacional, nas tribunas, nas redes sociais. Até um sempre feroz pitbull apareceu, como cão guia, metáfora viva da grotesca tentativa de fuga do ex-chefe da PRF bolsonarista.

O desfecho foi digno do enredo de filme de quinta categoria: tentativa patética de romper a tornozeleira eletrônica, como se a realidade pudesse evaporar com um ferro quente. O Natal veio em clima de praia, todo mundo de chinelo, apesar da convocação quase necrológica de figuras menores, empunhando punhais verde-amarelos imaginários e repetindo, com fé de seita: “eu acredito”. Acredita em quê? No golpe que não veio? No heroísmo de fantasia? Ou na fuga permanente da própria sujeira?

Haja punhal simbólico para esconder a pobreza real.

Mas, contudo, todavia, nem todo esse estardalhaço político nos livrou da conversa mais chata de toda virada de ano: o prêmio da Mega-Sena, que desta vez deve beirar a obscenidade estatística de um bilhão de reais. Um número tão grande que já não cabe na imaginação. E a pergunta inevitável: o que você faria com tanto dinheiro?

Não sei. Nunca soube. Mas sei perfeitamente o que deveria ser possível fazer mesmo sem ganhá-lo.

Se um bilhão serve para alguma reflexão coletiva, talvez seja esta: dignidade custa menos do que parece. Começa pequeno. Começa no corpo. Começa no cotidiano.

Que quem hoje conta moedas para uma meia dúzia de Crystal, Moema ou uma Skolzinha que “desce redondo” possa, ao menos uma vez por mês, tomar uma Heineken. Não por fetiche de marca, mas por justiça sensorial. E já que cerveja lembra churrasco, que o coxão duro dê lugar, ainda que ocasionalmente, à picanha — não como slogan eleitoral, mas como política alimentar básica. Comer melhor é prevenção. Alimentar-se bem é saúde pública.

E saúde pública, sejamos honestos, começa num lugar que discursos patrióticos evitam, exceto o da vereadora Isa Cavala Marcondes: o banheiro.

Começa no papel higiênico. No bidu. No mínimo civilizatório. Um fiofó mal cuidado vira hemorróidas, vira receita médica, cirurgia, vira fila no SUS e vira lucro da indústria farmacêutica. Um bidu instalado é mais eficaz do que muito programa governamental mal desenhado. Mas bidu (duchinha) não rende foto, nem voto, não vira meme e não combina com as sempre fartas e polêmicas emendas parlamentares.

Enquanto isso, regula-se o discurso, censura-se o corpo e romantiza-se a sujeira política.

De minha parte, se sobrasse umas quirerinhas — com ou sem um bilhão — bastaria pouco: a tão sonhada “puta edícula” no fundo da casa de um dos filhos ou que fosse, voltando às origens, ali no Jaguapiru, num canto de terreno qualquer, desde que com uma árvore frondosa, mesa honesta e silêncio suficiente para ler e escrever. Escrever muito. Na reta final dessa passagem terrena e o contrapontoMS não mais incomodando, um fusquinha 69 para ir nadar e fazer academia no Indaiá, e pelo menos uma vez por semana uma resenha na padaria do fuxico, esse verdadeiro centro de inteligência douradense onde se descobrem mais verdades do que em muitos gabinetes oficiais.

Porque é no pequeno que o país se revela.

E para fechar — porque toda filosofia precisa de uma história concreta — recorro ao mais prosaico dos sonhos, entre os eventuais ganhadores do grande prêmio de fim de ano, o de minha sogra Herta Tetslaff Torquato, viúva do seu Manoel Eletricista, o homem do já eternizado “é aí que surge o pobrema”. Sempre que o assunto é Mega-Sena, ela realimenta este sonho: se ganhar, troca o telhado de sua velha casa tábuas. Só isso. Nada de luxo. Um telhado firme, que não pingue, que não ameace cair sobre a memória, o corpo e a dignidade.

Talvez esteja aí a resposta definitiva sobre o que fazer com R$ 1 bilhão.

No Brasil, quem trata o dinheiro público como privada particular acaba, mais cedo ou mais tarde, obrigado a encarar a descarga da história. Alguns tentam escapar com punhais simbólicos, outros latem, outros se fazem de vítimas — mas todos acabam se sentando no mesmo “trono”, lendo o próprio nome nas páginas que fingiram desprezar. Enquanto isso, há quem siga sonhando apenas com um telhado firme. E não por acaso, são esses que costumam permanecer de pé quando a casa alheia desaba.

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