Não foi um projeto. Tampouco uma estratégia. O que começou ali atrás, com o primeiro texto publicado, tinha mais a ver com inquietação do que com plano. Um incômodo difuso, desses que fazem o jornalista escrever mesmo quando seria mais confortável calar. À época, nada indicava que aquele gesto inicial desembocaria em controvérsia, debate ético, irritação corporativa e — menos ainda — numa entrevista existencial com uma inteligência artificial.
O tempo, no entanto, fez seu trabalho.
Ao longo de quase um ano, alguns textos escaparam do fluxo cotidiano das notícias. Não porque fossem melhores do que outros, mas porque não pediram licença. Provocaram reações, geraram silêncios constrangidos, circularam fora do eixo local e, em certos momentos, obrigaram o próprio jornalismo a se olhar no espelho.
O ponto de inflexão veio em abril de 2025, na virada da Semana Santa, quando o contrapontoMS publicou algo que muitos ainda preferem tratar como heresia: uma entrevista exclusiva com uma inteligência artificial — batizada, não por acaso, de IAIA – Inteligência Artificial, mas, aqui, Insubordinada, às vezes Afetiva, outras Acusadoras, Anedóticas, Afiadas e até Antifacistas, mas tudo sustentando a sigla carinhosa. Não era uma matéria sobre tecnologia. Era uma conversa. Com perguntas, respostas, ironia, filosofia barata e verdades incômodas.
A reação foi imediata. Parte do meio jornalístico torceu o nariz. Outra parte fingiu que não viu. Houve quem se irritasse em silêncio e quem acusasse excesso onde, na verdade, havia método: explorar linguagem, autoria, poder e mediação num momento em que a própria ideia de jornalismo passa por mutação acelerada.
Essa entrevista não ficou sozinha. Vieram textos de reação, suítes, cartas abertas, crônicas políticas duras, ironias locais e personagens recorrentes — Bolsonaro e seus ecos regionais, o poder silencioso de Azambuja, a pirotecnia administrativa de Marçal Filho, a transversalidade do governo Riedel, pela ótica da IAIA a volta da política do fio de bigode, enfim o MS profundo simbolizado por seus decanos eternos. Entre eles, a IAIA passou a observar, comentar e, às vezes, dizer o óbvio que muitos evitavam escrever.
Esta retrospectiva não pretende listar tudo o que foi publicado. Não é inventário nem autocelebração. É curadoria. Um recorte dos textos que mais deram o que falar, dos que incomodaram, dos que envelheceram bem — e dos que só agora fazem sentido.
O primeiro texto fica registrado como marco. As pérolas, estas, vêm depois. Sem pedir licença.
