Ponta Porã sempre mereceu o respeito dos douradenses. Não por diplomacia, não por conveniência, mas por herança. Há cidades que se respeitam como se respeita parente antigo: não se discute, não se explica, apenas se reconhece. No meu caso, além do respeito, sempre houve carinho. Além dos grandes amigos que fiz ali, meu grande guru João Natalício de Oliveira também resolveu fincar lá as estacas de seu Jornal da Praça, hoje Jornal de Notícias; ele que nunca se cansou de dizer — e eu nunca de repetir, com o mesmo orgulho com que Puccinelli reivindica suas crias — que eu sou uma delas. Sou mesmo. E não nego.
Sou do tempo em que Ponta Porã brilhava no cenário nacional não por acaso, mas por influência real. Primeiro com o senador Saldanha Derzi, depois com seu filho, meu querido amigo Flávio Dérzi, liderança precoce e precocemente interrompida, como tantas que fazem falta até hoje. Com Flávio vivi uma das minhas maiores peripécias como marqueteiro eleitoral, quando, com o carcomido e simplório Carlinhos Fróes, demos uma surra eleitoral no arquiteto de família tradicional, Helinho Pelufo, na eleição para prefeito de 1996.
Também sou do tempo em que Ponta Porã tinha prefeito raçudo. Aires Marques, o português desengonçado que governava mais com teimosia do que com protocolo, que obrigou seu amigo de infância, dos tempos de Bastos-SP, o então ministro Sigeaki Ueki, a levar energia elétrica para a fronteira. Um esforço hercúleo, diga-se, feito à base de postes de aroeira emendados um no outro, de Dourados até Ponta Porã, numa obra que hoje renderia CPI, documentário e tese de doutorado — mas que, à época, resolveu o problema. Aires também não gostava de fazer “empenhos” para pagar a imprensa. Achava perda de tempo. Preferia carregar o dinheiro numa mala, no porta-malas do Opala preto, e pagar adiantado, sem cerimônia. Fez isso comigo quando eu era correspondente da Folha de Londrina, quitando uma página inteira de matéria paga, ideia, claro, do mesmo João Natalício. Tudo isso sob o olhar estupefato de um certo Antônio Carlos Magalhães — sim, ele mesmo — que naquela época ainda era apenas diretor da Eletrobrás, muito antes de virar ministro e depois o todo-poderoso ACM senador baiano. Outros tempos. Outras hipocrisias.
De uns tempos para cá, porém, Ponta Porã passou a ser tratada com desdém por suas próprias “novas lideranças”. Gente de mente tacanha, dessas que confundem modernidade com soberba e progresso com birra. Talvez isso se explique pela visão que esses políticos têm de Dourados quando passam por aqui pela BR-463, a caminho de Campo Grande. Olham de fora, veem torres e mais torres de prédios comerciais e residenciais, e concluem, com a rapidez típica dos ignorantes convictos, que aquilo ali “até parece cidade grande”. É o tipo de análise que dispensa estudo e sobra preconceito.
Por ironia do destino — que adora esse tipo de humor cruel — tanto Helinho Pelufo quanto o atual prefeito de Ponta Porã, Eduardo Campos, foram obrigados a “visitar” Dourados em situações de emergência. O primeiro, depois de levar alguns tiros na barriga, precisou se internar às pressas no Instituto do Coração. O segundo, no mesmo hospital, apareceu com um alegado “pré-infarto”, convenientemente às vésperas de um debate eleitoral, numa daquelas coincidências que só a política explica. Nada como Dourados quando a coisa aperta.
Nesse longo interregno em que Dourados ficou sem aeroporto — fruto de uma sequência de trapalhadas que começou com Délia Razuk e atravessou a administração Alan Guedes — as inconformadas lideranças de Ponta Porã tentaram dar o troco. Conseguiram, provisoriamente, capitalizar a situação, até porque têm, de fato, um aeroporto melhor do que o nosso. Mas, como quase tudo na política, foi vantagem temporária, dessas que duram menos do que discurso de inauguração.
E eis que chegamos a 2026. E Ponta Porã começa o ano, finalmente, com o pé direito — mesmo sem Havaianas. Um dos bilhetes premiados da bilionária da Mega-Sena da virada saiu de lá. Não importa quem são os dez sortudos. Importa é que o dinheiro vai circular na fronteira. E não é qualquer dinheirinho, são cerca de R$ 180 milhões, de fazer inveja a qualquer emenda parlamentar. Outra coisa, pela primeira vez em muito tempo, Ponta Porã ganha notoriedade por uma coisa alvissareira, não apenas por ser porta de entrada do narcotráfico ou por ter sido a cidade onde morou o eterno “rei da Fronteira”, Fahad Jamil, depois de Saldanha Derzi a maior liderança real que aquela faixa de fronteira já produziu.
A sorte, afinal, também governa. E às vezes governa melhor do que muita gente eleita.
